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Do Neojiba para o mundo: a trajetória de três jovens negros na música clássica

Ana Carolina, Cristiana Souza e Gabriela Ferreira - 23 de maio de 2018

Quando observava atentamente sua vizinha tocar violino, Laércio Souza não imaginava que iria viver de música, muito menos que um dia deixaria a sua casa, no Nordeste de Amaralina, para se apresentar em palcos de teatros internacionais. Hoje, músico da Orquestra Sinfônica da Bahia (OSBA), Laércio é um exemplo de que oportunidades oferecidas por programas de ação social podem ser o despertar de uma carreira promissora. Assim como Laércio, outras crianças e jovens baianos moradores de periferias têm encontrado, por meio do programa NEOJIBA – Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia, a possibilidade de estudar música clássica e, sobretudo, de serem protagonistas do seu próprio destino.

Laércio Souza, 23 – Violista

A trajetória de Laércio na música clássica é marcada pelo esforço e dedicação. Quando recebeu seu primeiro instrumento, estudar e praticar por 11 horas diárias sem parar, era comum em sua rotina. “Eu fiquei muito viciado e depois que eu criei essa relação com a música não larguei mais”, relembra. Laércio foi criado por sua mãe junto com cinco irmãos, no bairro da Santa Cruz, e a única influência musical na família é o seu tio, Tote Gira, músico violonista.

A primeira escola de música que frequentou foi o projeto social Estrelas Musicais – contemporâneo ao Neojiba, que funciona no Nordeste de Amaralina. “Quando eu entrei no projeto o professor ficou impressionado porque eu já sabia tocar e ele nunca tinha me visto, não me conhecia”.

Em dezembro de 2009, Laércio foi aprovado para a Orquestra Castro Alves (OCA), onde ficou pouco menos de um ano. Participou de uma nova audição e passou a integrar a Orquestra Juvenil da Bahia – primeira formação e grupo principal do Neojiba, e foi escolhido como um dos chefes de naipe de viola.

Após cinco anos de estudos, o jovem que, na adolescência, nunca imaginou que viajaria para o exterior,  já acumulava viagens a países como Suíça, Alemanha, França, Itália, entre outros. Laércio decidiu arriscar um pouco mais. Se candidatou e foi aprovado para a Orquestra Jovem, em São Paulo, onde também foi chefe de naipe e pôde iniciar seus estudos acadêmicos. Quase dois anos depois, decidiu voltar para Salvador e fazer seleção para a OSBA – Orquestra Sinfônica da Bahia.

“Eu disse: Ah, vou tentar! Tentei e passei em primeiro lugar!”, conta sem esconder o orgulho de ser músico efetivo da orquestra, mas que ainda guarda boas lembranças de quando iniciou a sua carreira. “As minhas maiores experiências foram exatamente quando eu estava no Neojiba. Na minha primeira viagem internacional, a gente tocou com músicos renomados que eu nunca ia imaginar que poderia tocar junto”.

E para aumentar a sua extensa lista de experiências, antes do final do primeiro semestre de 2018, Laércio participará do Schleswig-Holstein Musik Festival, em Berlim, onde terá aula com Tabea Zimmerman, considerada uma das maiores violistas do mundo.

“Será uma das maiores experiências da minha vida porque é a violista que eu mais amo”, conta entusiasmado, ele que ainda diz não acreditar como tudo começou. “Até hoje eu me impressiono. Foi uma coisa que aconteceu e eu não esperava de jeito nenhum, simplesmente fui lá tentar e gostei demais”, assim ele resume a sua jornada até aqui.

Ainoã Cruz, 24 – Violinista

Mesmo sem referência musical na família, foi com toda a espontaneidade de uma criança de seis anos que, ao ver a conhecida Família Lima na tevê, Ainoã se interessou por tocar violino – aquele ‘negoço’ que mais parece um mosquito, segundo definição da sua mãe. “A minha mãe achava que era coisa de criança, que eu ia esquecer”. Aos oito anos Ainoã iniciou as aulas de violino na escola de música do Colégio Adventista, graças a um desconto que a sua tia conseguiu, e lá estudou até os 14 anos.

Integrante da primeira turma do Neojiba, a violinista não imaginava que as suas convicções e maiores realizações pessoais estariam interligadas direta ou indiretamente ao programa. De forma muito natural Ainoã passou a vivenciar o lema do El Sistema – programa venezuelano que inspirou a criação do Neojiba – “Aprende quem ensina”.

“Eu descobri que a coisa que eu mais gosto de fazer na minha vida não é apenas tocar, é ensinar a tocar”, confessa Ainoã, licenciada em música pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e instrutora do Neojiba no Núcleo Liberdade, um dos bairros de maior concentração da população negra na capital baiana.


Para além das questões musicais, a violinista se declara feminista e considera importante se aceitar e autoafirmar nesse ambiente. “Acho que eu só tive consciência do que é uma mulher negra fazendo música quando eu virei professora”, avalia.

“Vê-las olhar pra mim e dizer: ‘Olha pra Ainoã, ela tem o cabelo igual ao meu, ela toca muito bem, ela viaja, ela é professora’”, conta sem esconder a felicidade da “pró” Ainoã, como é conhecida entre as crianças, ao mesmo tempo em que reflete como ela tem inspirado a outras meninas que estão em fase de formação musical e da própria identidade. “Ao ver uma aluna achar que, pela cor da pele, pelo cabelo ou traços negros, ela é menor do que os outros, sinto que eu preciso ser uma referência pra ela”.

Trançada, feliz e recém chegada de um intercâmbio em Maputo, capital de Moçambique, onde ensinou durante três meses no Projeto Xiquitisi que, como a Neojiba, utiliza a música como instrumento de ação social na educação de crianças e jovens. Para a musicista, essa viagem está no topo das suas conquistas. “Eu acredito que as turnês foram muito importantes para minha realização pessoal, mas dessa vez eu fui pra ensinar”.

 

 

Ainoã e Uriel em uma das turnês da Orquestra Juvenil da Bahia

Uriel Borges, 21 – Trompista

Ensinar também está na lista das maiores experiências vividas pelo trompista Uriel Borges, ex-membro do Neojiba. O jovem negro residente no bairro de Praia Grande, subúrbio ferroviário de Salvador, já coleciona viagens, sonhos e muita história para contar. “Com certeza tocar e conhecer músicos excelentes também é impagável. Para além disso, a experiência que eu tive de ser monitor e ver o desenvolvimento dos meus alunos foi muito gratificante pra mim”, diz Uriel.

Apesar de ter iniciado na música ainda criança, tocando sax e flauta doce na igreja evangélica que frequentava, o primeiro contato com a música erudita só aconteceu em 2008, quando participou de um projeto voltado para clarinetistas, na UFBA, sob coordenação do professor Joel Barbosa.

Quando decidiu fazer o teste para o Neojiba como clarinetista teve que abrir mão do clarinete para aprender a tocar trompa, já que não havia vaga para o naipe que ele desejava. “Não sabia nem o que era o instrumento, mas pela vontade de continuar no mundo da música eu decidi aceitar e comecei a estudar trompa. Eu não a escolhi, foi ela que me escolheu, e até hoje me escolhe”, conta.

 

 

Uriel vive um momento de indecisão e incertezas na sua carreira. Prestes a se formar em trompa pela Escola de Música da UFBA, ainda aguarda ser convocado para a Orquestra Sinfônica de Sergipe, onde passou recentemente no concurso. “Eu sempre tive o Neojiba como renda, mas agora eu tô parado porque eu continuo esperando a resposta de Sergipe”, explica.

Ainda sem renda fixa, Uriel não conseguiu terminar o pagamento do próprio instrumento, que custa em média R$20 mil, adquirido com a ajuda do maestro Ricardo Castro, diretor geral do Neojiba. E, conforme acordado, só pagará quando estiver empregado. “Ele foi um verdadeiro pai para mim nesse sentido. Talvez ele nem tenha consciência disso porque não tínhamos uma aproximação, mas através da vida dele, eu conquistei e aprendi muitas coisas”, conta.   

Apesar das dificuldades que ainda enfrenta para se manter ativo como músico, Uriel vive uma realidade que parecia ser inalcançável para alguns negros que vivem na região do subúrbio. “O Neojiba possibilitou muitas coisas pra gente que é suburbano”, afirma.

Enquanto esteve no programa, o trompista diz não lembrar de ter sofrido preconceito por ser negro ou pelo lugar onde mora, mas conta que sentiu de perto, quando esteve sozinho no Festival de Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 2016, antes mesmo de ter tocado. “Depois que eu toquei, todo mundo ficou impressionado e perguntou: ‘Nossa, tem músico bom na Bahia?!’”.

Ainda assim, convicto de suas escolhas, Uriel se orgulha da própria trajetória. “O profissional que eu me tornei está acima de cor ou lugar que eu moro. Acredito que tem que ser assim”, finaliza.

 

A importância dos projetos sociais

No Brasil, os projetos sociais, sobretudo aqueles fomentados por políticas públicas, têm ampliado e democratizado o acesso à educação complementar ao mesmo tempo em que promove uma mudança social e econômica na vida de muitas pessoas, especialmente de crianças e jovens.

O trabalho dos Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia, com os seus 13 núcleos espalhados pelo estado, tem promovido o desenvolvimento e a integração social prioritariamente de crianças, adolescentes e jovens em situações de vulnerabilidade por meio do ensino e prática musical coletiva da música clássica de orquestra.

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