“Disse que estava se masturbando enquanto falava comigo”: o assédio sofrido pelas atendentes de telemarketing

Bianca Meireles e Romário Almeida - 1 de junho de 2021

Atendentes de telemarketing relatam situações de assédio sofridas em ligações. (Reprodução)

“Sem meta batida não há empregabilidade. A orientação é sempre fazer o máximo para que o cliente encerre a ligação satisfeito. Em casos de trote, temos que chamar o supervisor. Mas mesmo não sendo a recomendação, eu desligo. Nesses quase 8 anos de call center, eu não vou ser mais obrigada a ouvir xingamentos e piadas de conotação sexual de desconhecidos”, conta a atendente de telemarketing Letícia Gomes, 26 anos.

O relato de Letícia não é uma exclusividade, todas as atendentes entrevistadas relataram os mesmos desconfortos. E mesmo com as condições de trabalho impostas e os relatos constantes de assédio, segundo levantamento da empresa de recrutamento online Catho, por conta do aumento das vendas online durante a pandemia de Covid-19, o telemarketing cresceu 36% entre fevereiro de 2020 e fevereiro de 2021, após cinco anos de recessão.

Fonte: Caged

Apesar do interesse da área em crescer, as entrevistadas contam que ainda é preciso estruturar alguns pontos na rotina de trabalho e é preciso ter, sobretudo, uma política mais clara para casos de assédio, seja ele praticado por líderes, colegas ou clientes.

Segundo as entrevistadas desta matéria, existe um protocolo comum entre as empresas de telemarketing que orienta as atendentes a não desligarem a chamada com o cliente, mesmo quando estão sendo assediadas moralmente, psicologicamente ou sexualmente. 

“Há algum tempo, em um call center que trabalhei, recebi uma ligação de um cara que perguntou algo que não tinha nada a ver com o produto que eu trabalhava. Expliquei sobre o produto, ofertei o plano e, logo em seguida, ele disse que estava se masturbando enquanto falava comigo… Na lata, sem medo! Elogiou de forma obscena minha voz, dizendo que se ela era gostosa assim, imagine minhas [partes íntimas]. Depois desligou. Fiquei espantada. Esse episódio me marcou.”, relata Mariana Pereira (nome fictício, por opção da entrevistada).

E a lei, o que diz?

Segundo Mariana, na época em que aconteceu o seu assédio, a empresa resgatou os dados da pessoa através do sistema, mas aparentemente não encaminhou o caso. Inclusive, relata que nunca soube de alguma operadora que tenha recebido a orientação de ir até a justiça por conta de assédio. Mas o que a lei diz? Ouça o áudio da advogada Jéssica Cordeiro:

A especialista complementa dizendo que, ainda que não exista de forma expressa na lei um tópico exclusivo sobre assédio em ambientes de teletrabalho, como telemarketing, é possível entrar na justiça para solicitar a quebra de sigilo dos dados do assediador. Uma vez com a ordem judicial concedida, caso o juiz dê parecer favorável, o suspeito de assédio será chamado para depor. 

Além disso, o código civil brasileiro, no Art.186, assegura que o empregador pode responder, civilmente, pelos danos causados ao trabalhador decorrentes das más condições do ambiente de trabalho. O texto prevê que “aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito”. Ou seja, havendo dano à integridade física, à honra ou aos bens de uma pessoa, em ambiente de trabalho, o empregador tem responsabilidade. 

E  quando falamos de gênero…

Mulheres sofrem mais assédio moral e sexual no ambiente de trabalho do que os homens. De acordo com a pesquisa do Instituto Patrícia Galvão, 40% das mulheres entrevistadas relatam já terem sido xingadas ou gritadas em ambiente de trabalho, contra 13% dos homens. 

O gênero é determinante no quesito vulnerabilidade, e nem as Inteligências Artificiais estão fora dessa estatística. Bia, do Bradesco, e Lu, do Magazine Luiza, foram vítimas de assédio e violência sexual, ainda que não sejam, de fato, mulheres.

Para debater a questão do machismo, Bradesco lançou uma campanha publicitária onde  Bia, assistente virtual, informa que “não vai mais se calar”, exemplificando como a partir do lançamento da peça publicitária a robô responde às mensagens de assédio de forma mais contundente.

Mas o mundo real difere da realidade virtual onde a Bia existe. Enquanto ela pode responder as mensagens de forma reativa e até mesmo encerrar o contato, muitas atendentes de telemarketing são orientadas a ficar até o final da chamada, ainda que estejam se sentindo ofendidas. As responsabilidades, o medo do desemprego, as incertezas são alguns dos motivos relatados pelas entrevistadas para seguir o protocolo.

E o psicológico, como fica?

Imagine um emprego onde sua função é passar o dia todo ao telefone. Atendendo chamada após chamada e com direito a pausas escassas e cronometradas. Do outro lado da linha, por sua vez, clientes irritados e, por muitas vezes, ofensivos. Um trabalho onde ser chamada de “imbecil” e “burra” faz parte da rotina e que, muitas vezes, é preciso ouvir tudo em silêncio. 

“Pedem sempre um atendimento humanizado. Por mais que o cliente te trate mal, xingue a você ou a empresa, devemos ser solidários e solícitos com o cliente. Me sinto uma máquina de sorrisos. O intervalo entre uma ligação e outra é muito curto. Muitas vezes acabamos de encerrar uma ligação de atrito e precisamos esquecer tudo, atendendo da forma mais simpática que existe”, disse a atendente que pediu anonimato. 

Segundo o Sindicato dos Trabalhadores em Telemarketing (Sintratel), 30% dos operadores de telemarketing sofrem de transtornos psicológicos causados por estresse. O levantamento feito pelo Sintratel mostra que esses transtornos são causados por diversos fatores como estresse, assédio, pressão constante e trabalho exaustivo.

Para a psicóloga Tamires Silva, quanto maior a necessidade de permanecer nesta relação empregatícia, sem perspectiva de prazo para finalização desse vínculo, vivendo situações humilhantes e vexatórias repetidas vezes, maiores são as chances desses atos repercutirem psicologicamente de forma danosa, provocando questões que podem afetar outras áreas da vida do sujeito.

No âmbito real ou virtual, a combinação de punições previstas em lei e ações educativas estruturantes pode ser um caminho para a diminuição do assédio moral e sexual.

 

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