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Desafios para novas pautas na comunicação, ciência e política

- 8 de junho de 2011

Liliana Peixinho realiza exposição fotojornalística na FACOM/Foto: Arquivo Pessoal

“O sistema de produção e consumo imposto pelas corporações assegura a injustiça”

Por Joseanne Guedes

Jornalista e pesquisadora independente, a ativista ambiental Liliana Peixinho fala sobre as novas pautas da Comunicação e Sustentabilidade e trata de questões polêmicas como a especulação imobiliária e a aprovação do novo Código Florestal. Para ela, “o sistema de produção e consumo imposto pelas corporações, mercados financeiros e os governos asseguram a manutenção de um sistema injusto, excludente, violento” A fundadora do movimento Amigos do Meio Ambiente

(AMA) revela os desafios encontrados pelos jornalistas na cobertura das pautas científicas e destaca o papel da Academia, da Ciência e de cada um de nós, na construção de um novo modelo de Vida. Leia trechos a seguir.

Impressão Digital 126 – De que maneira o jornalista pode dar vazão à pesquisa científica sem    incorrer em equívocos ou, até mesmo, parecer mera reprodução do discurso científico?

Liliana Peixinho – Estabelecendo com a fonte uma relação de exigência e transparência, para socializar boas informações em nome da garantia da  Vida, com qualidade. Não esconder informações ou publicá-las, como um papagaio, sem o questionamento necessário ao trabalho de qualquer jornalista sério, saber apurar e contextualizar. Perceber, investigar e denunciar o lado podre, que envergonha, descredibiliza e empobrece, a própria Academia.

ID126 – Como jornalista, de que forma seus textos podem contribuir para a reflexão e questionamento sobre as relações do homem com a natureza?

LP – A pauta ambiental mudou muito nas ultimas décadas, e está a nos exigir uma visão de mundo profunda sobre o que é preciso para preservar a Vida, com a qualidade e prazer que merecemos. Assim, em meus textos procuro dar atenção a pequenos e importantes detalhes. Considero importante não reproduzir modelos de comportamento que reforcem a ação humana perversa, degradadora, consumista/impulsiva, pois na visão profunda, conectada aos problemas que estamos a combater, precisamos estar atentos às soluções, que existem, e só precisam ser realizadas. Isso exige esforço, trabalho, mudança de comportamento, sacrifícios, civilidade. E a informação direcionada a essa mudanças é o único instrumento possível para construímos o que chamo de cadeias produtivas sustentáveis de ponta a ponta, ou seja, produtor e consumidor sintonizados com as limitações e exigências da grande matriz: Natureza. Esse não é um discurso que separa Economia de Política, Política de Cultura, Cultura de Comportamento, Comportamento de Natureza, Natureza de Homem. Todos estão muito juntos, numa teia de conexões com “vias de mão dupla”, como diz o Vilmar Berna, da Rebia. Veja como os anúncios publicitários exploram bem a estética da Natureza bela, para seduzir e enganar: Entre o que é dito e o que, de fato, está sendo feito, tem muitas mentiras e erros. Expressões como sustentável, por exemplo, perde seu valor quando constatamos que no Brasil o Congresso Nacional acabou de aprovar um Código Florestal onde o agronegócio, que pinta nossas florestas de branco, com a boiada nos pastos, e a monocultura é prioridade para o saldo da balança comercial, e commodities levam nossas riquezas em troca do lixo dos produtos chineses, que invadem nossas casas, de norte a sul, os desafios aumentam/complicam para as futuras gerações.

Foto: Arquivo pessoal

ID126 – De que maneira você atua na área? Como é o seu trabalho como jornalista, ativista na área socioambiental.

LP – Minha atuação é livre e colaboro com diversas mídias especializadas em Comunicação e Sustentabilidade. A idéia é construir novos caminhos para a pauta de Sustentabilidade na Bahia, no Nordeste, no Brasil. Depois que voltei da Europa, onde fiz vários contatos com movimentos socioambientais, criei os Movimentos AMA (Amigos do Meio Ambiente) e a RAMA (Rede de Articulação e Mobilização Ambiental) que têm esse papel de difundir a informação nas redes sociais, nas palestras e oficinas Brasil a fora, para que a gente possa refletir sobre o lugar do jornalista nessa pauta, que a cada dia se revela mais desafiadora. Entre as redes está a REBEA, que é do Comitê Facilitador da Sociedade Civil Brasileira para a Rio+20. Estamos dando apoio, divulgando e participando de ações que possam fortalecer o evento onde vamos apresentar propostas para as ações junto às organizações da sociedade civil e movimentos sociais e populares de todo o Brasil e do mundo até junho de 2012.

ID126 – E na Academia, quais são suas propostas?

LP – Minhas ações, trabalhos, pesquisas, são direcionadas para  novas pautas socioambientais. Na Faculdade de Comunicação da UFBA, todos os meus estudos são voltados para as comunidades tradicionais. Sempre com olhar voltado para a reversão da miséria e injustiça social, já que pesquisas dão conta que sete bilhões de seres humanos vivem hoje as sequelas da maior crise capitalista desde a de 1929. Vivem o aumento gigantesco da desigualdade social e da pobreza extrema. O sistema de produção e consumo imposto pelas corporações, mercados financeiros e os governos asseguram a manutenção de um sistema injusto, excludente, violento. Nessa linha, produzi trabalhos como Protagonismo Indígena Sustentável x Discurso Político Marketeiro, Reforço Midiático do Discurso Governamental da Política de C&T,       Discurso Político da Saúde Pública Brasileira e Revelações da Mídia sobre Descasos e Mortes Cotidianas, entre outros, sempre voltados para as novas pautas ambientais.

ID126 – Qual foi a pauta mais difícil que você já realizou na cobertura de C&T?

LP – Penso que não existe pauta difícil ou fácil, existem perguntas e respostas conectadas, ou não, com os interesses e necessidades dos cidadãos comuns. Se formos críticos, éticos e comprometidos com as mudanças que a Ciência pode favorecer para melhorar a Vida neste planeta, sedento de cuidados, qualquer que seja a pauta saberemos conduzi-la junto às fontes para extrair o que de melhor a pesquisa descobriu em favor da Vida, com qualidade, equidade e justiça. Mas, tenho dificuldade em extrair dos pesquisadores, de forma geral, respostas sobre por que a Ciência anda tão distante da melhoria da qualidade da vida da maior parte dos habitantes da Terra. Isso incomoda.

ID126 – Como funcionam as pressões nas redações em relação à cobertura de assuntos polêmicos? Como aliar interesses empresariais com a questão ambiental, priorizar a ética, transparência e, ao mesmo tempo, preservar seu emprego?

LP – Quem segura o jornal é a publicidade. Quando algum conteúdo jornalístico não corresponde aos interesses de grupos políticos, empresariais que anunciam no veículo, a coisa complica. Mas, o caminho está sendo construído.  Há jornalismos que conseguem driblar, de uma maneira sutil. É óbvio que os interesses empresariais divergem das prioridades da pauta ambiental. A sustentabilidade é visível apenas no discurso. Na prática, as empresas depredam o meio ambiente, e “compensam” com algum projeto social. No entanto, aliar esses interesses com a questão ambiental é perfeitamente possível quando o jornalista tem o compromisso de apurar se o que está sendo dito equivale à realidade. Em outubro, por exemplo, nos dias 12, 13, 14 e 15 teremos o IV Congresso Brasileiro de Jornalistas Ambientais, e o Encontro da Red Latino-Americana de Periodismo Ambiental (REDCAL), a serem realizados no Rio de Janeiro.

ID126 – Muitas matérias se restringem a apresentar resultados, sem contextualização, ponderação sobre riscos… Quais os maiores desafios do profissional que cobre essa área?

LP – Estudar muito, ler sobre as diversas versões, tendências, correntes da Ciência, saber identificar os grupos de interesses x, y ou z, e não querer ser um mero cumpridor de pautas como instrumento de recado do patrão para garantir um empreguinho qualquer, numa redação desconectada com o seu papel de agente social de poder. Ou, se o jornalista/comunicador tem isso claro, e se sente bem em fazer de conta que não percebe o uso de determinada informação contrária a valores e princípios que defende, ai, infelizmente, continuaremos a ter desafios históricos básicos, como o combate a fome e violência dentro da nossa própria casa.

ID126 – O que você acha do curso de Jornalismo Cientifico e Tecnológico da FACOM?

LP – A iniciativa da professora Dra. Simone Bortoliero, coordenadora do curso, começa a ser valorizada em outros estados do Nordeste, região historicamente esquecida pela Ciência na busca de soluções para a pobreza. E isso é muito importante porque, mais do que novas escolas de jornalismo, precisamos de profissionais comprometidos, apaixonados. Essa paixão é alimentada pelo conhecimento, pelo gosto em querer saber, aprender, para multiplicar. A criação da Agencia de Notícias é uma esperança para o escoamento de demandas reprimidas. E temos reforçado a importância da Agencia CT &I junto aos professores e ao mercado, como oportunidade que temos de fortalecer o papel da Ciência na democratização, do acesso ao saber para o viver bem.

ID126 – O tema da Semana de C&T desde ano será “Mudanças Climáticas”. Embora seja um tema controverso para alguns especialistas, para você, o problema pode ser destacado da ação humana?

LP – Não acho controverso não. A Ciência continua dando provas de que a garantia da Vida na Terra está comprometida porque a ação humana continua rápida.   Acelerou, em larga escala, a destruição. E não se preocupou, e parece não querer se preocupar, em preservar, encontrar mecanismos que minimizem os problemas. O planeta continuará passando por grandes ciclos de mudanças. Cabe ao ser humano adaptar-se, para sobreviver, com dignidade, aos desafios da Natureza.

*Liliana Peixinho – Jornalista, ativista socioambiental. Pós graduada em Mídia e Meio Ambiente. Fundadora dos Movimentos Livres AMA/ RAMA – Amigos do Meio Ambiente e Rede de Articulação e Mobilização Ambiental. lilianapeixinho@yahoo.com.br

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