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De olho no volante e na pauta: histórias de motoristas de redação

- 16 de julho de 2013

Profissionais de A Tarde e Correio contam como é o dia a dia de quem é responsável por levar repórteres e fotógrafos aos locais de apuração de notícias em Salvador

 

Camila Martinez

Em seu livro “Repórter no Volante”, a jornalista e professora de Jornalismo na Universidade Federal Fluminense (UFF), Sylvia Debossan Moretzsohn, lança o olhar para uma figura pouco lembrada na atividade jornalística: o motorista de redação. Graças à sua pesquisa inédita, a investigadora dá voz a profissionais que atuaram nos principais jornais do Rio de Janeiro – O Globo, O Dia, Extra e Jornal do Brasil – e também na sucursal carioca da Folha de S. Paulo.

Conhecedor de todos os cantos da cidade, o motorista de redação não só cumpre a função de conduzir equipes de reportagem até o local de apuração da notícia. Ele é considerado, muitas vezes, o “segundo olho do repórter”, pois, atento às pautas e aos fatos, ajuda na busca das informações fundamentais para a composição da matéria.

Confira abaixo depoimentos de motoristas e ex-motoristas dos dois maiores jornais impressos da Bahia, A Tarde e Correio, conheça um pouco como estas pessoas vêem a atividade jornalística e o lugar em que nela ocupam, bem como os desafios cotidianos.

  • Ivanildo Cardoso, 32 anos, motorista de redação de A Tarde desde Janeiro de 2013

Trabalho para o jornal há pouco tempo, mas já aprendi que preciso ser ágil e atencioso. Cada minuto faz diferença para o repórter. O que mais dificulta o meu trabalho é quando me passam o endereço incompleto. O repórter já desce com muita pressa, não dá tempo de pesquisar na internet. A gente acaba indo ao local errado e dá viagem à toa.

Vejo que meu olhar já está mais treinado para perceber as coisas do Jornalismo. Mesmo em dias de folga, estou mais atento à validade dos produtos nos supermercados, aos buracos, ao lixo, aos acidentes. Quem sabe renda uma pauta e, depois, notícia. No mais, eu não dou opinião, porque é o trabalho do repórter. O meu é conduzir repórteres e fotógrafos com responsabilidade e segurança. Não tem diferença uma pauta ou outra, gosto de cobrir todas. Gosto 100% da minha profissão.

Acho que meu trabalho merece mais reconhecimento, afinal transporto vidas e me exponho à violência. Peço proteção a Deus antes de sair de casa. Já saio com a cabeça fria, pronto para enfrentar de tudo.

  • Nivaldo dos Santos, 53 anos, motorista de redação do Correio desde 1994

Deve ser tudo mais difícil para quem está começando agora a dirigir para o jornal. Eu conheço a cidade muito bem, já sei onde moram “as cobras”. Às vezes o colega não conhece determinado local, eu ajudo, não custa nada. Uma coisa terrível é ficar no engarrafamento. Para a gente não se estressar, pego atalhos. No dia a dia fico triste em ver acidentes e a violência tão de perto. Perigo a gente passa todos os dias estando perto de traficantes e assaltantes. Quando vêem o carro do jornal, mandam logo a gente “vazar”. Tem locais como Arenoso, Baixa do Tubo, Inferninho (Pernambués) que a gente só vai se tiver polícia. Aliás, a própria polícia só desce com comboio.

No passado, lá mesmo dentro do jornal, tinha o laboratório para revelar as fotografias. Com a tecnologia de hoje já não precisa mais disso, o que facilita a vida dos jornalistas e a nossa. Na apuração, a gente conversa com as pessoas e chama o repórter para falar com elas. Às vezes conheço a fonte, aí fica mais fácil. No Correio, a jornada é de nove horas, mas a gente sempre faz hora extra, é inevitável.

  • Jailton Freitas, 53 anos, motorista de A Tarde desde 2006

Em apuração de notícias de crime, a população quase nunca quer contato com o repórter, sabe como é, temem represálias. Aí eu me aproximo, jogo conversa fora. Ou, então, os próprios moradores se aproximam de mim e me dão informações. É comum o bandido não deixar a gente entrar em certos locais. Se ele ameaça, é porque está podendo, está armado. Tem que atender.

Gosto de sugerir pautas. Lembro uma vez que eu e o repórter já estávamos de saída para cobrir uma pauta, eu sugeri outra. O repórter subiu, conversou lá na redação e retornou dizendo que acharam a minha sugestão muito boa e que era mais importante, então a pauta de antes foi trocada pela minha. Senti uma satisfação muito grande. Pediram, inclusive, para eu continuar sugerindo pautas.

Em julho de 2012, quando ocorreu o incêndio no restaurante Coco Bahia, na Pituba, cheguei cedo e fotografei o fogaréu com meu celular desde o início até o final. Em 15 minutos o restaurante estava destruído. Outro dia, levei um pessoal ao aeroporto e, no retorno à redação, vi um cavalo atropelado. Também fotografei com o meu celular. Às vezes vejo uma coisa, mas o repórter não, porque está meio desligado. Colaboro como posso, mas acho que não devo cobrar reconhecimento e nem ficar chateado. Não faz parte da minha alçada.

A maior dificuldade da profissão é o que está atingindo todo mundo: o trânsito. Se temos que chegar a um local com urgência, busco desvios. E que bom que conheço bastante Salvador. Comecei como office boy, já tive táxi, trabalhei na manutenção de rede de esgoto em vários locais. Isso tudo me ajuda no trabalho que exerço hoje.

  • Jair Guimarães, o Jai, 54 anos, motorista do Correio desde 2002

A reportagem começa com o motorista, mas ninguém dá valor. Parei de sugerir pautas. Uma vez, estava na Av. Estados Unidos, no Comércio, e vi um ladrão que havia roubado o celular de uma mulher fugir pulando por cima dos carros. Avisei ao fotógrafo. Ele tirou a foto e pegou o cara no ar. Resultado: o fotógrafo ganhou um prêmio.

A gente vê as coisas, sugere, mas não é acatado. Uma vez vi um container de lixo obstruir a passagem dos carros no Nordeste de Amaralina, o que poderia causar um acidente. Levei o caso para o jornal, mas ninguém cobriu. Por outro lado, às vezes o repórter e eu saímos para cobrir pautas bobas que, de tão bobas, acabam nem sendo publicadas. O que acontece também é não lerem o release direito e a gente acaba indo a eventos na data errada, ou então vamos a eventos que foram cancelados só porque deixamos de confirmar se iria mesmo acontecer.

O risco faz parte do dia a dia da profissão. Salvador está muito perigosa. Antigamente, quando entrei, o tráfico até tinha certo respeito pelo trabalho da imprensa. Hoje, os criminosos mostram as armas, mandam a gente sair. Medo eu não tenho, essa palavra não existe para mim. O que tenho é receio, por causa da minha família. Por causa da minha experiência, já conheço as fontes de perigo.

Há uns quatro ou cinco anos, cobríamos pautas mais alegres, como inaugurações, festas, almoços. Hoje está tudo mais violento. Antes a gente tinha que se arriscar e trazer a notícia de qualquer jeito, mas hoje já se respeita mais as limitações que a violência impõe à apuração. Sempre estaciono o carro logo na frente, em posição de saída e estou sempre monitorando o trânsito pelo celular. Já ouvi repórter se queixar de motorista que estava dormindo no carro estacionado em local de risco. A bolsa está sempre no fundo do carro e o celular, escondido. A gente não sofre ameaças somente do criminoso. A polícia ameaça mais.

Também ajudo na investigação de notícias relacionadas a crimes. Fecho o carro e dou uma volta, me infiltro. Depois passo para o jornalista: “Olha, aquela mulher ali sabe de alguma coisa, aquele ali viu o que aconteceu”. O repórter chega com o crachá, com caneta e papel na mão e isso afasta as pessoas.

Quando acontece uma chacina, temos que chegar ao local antes da polícia e da concorrência. Então, tenho que correr, mas com prudência. Já sei onde estão os radares, não levo multa. Conheço Salvador como a palma da minha mão. Tem que ser profissional e ter conhecimento, boa vontade e observação. Eu ajudo sempre, principalmente a quem está começando, estudantes. Desempenho bem o meu trabalho, outros não, mas não quero me gabar. Escuto na redação: “Bota Jai, que Jai acontece!”. Queria ver esse reconhecimento também em forma de dinheiro. O jornal não valoriza, não tem incentivo. Dia 27 de junho foi o meu aniversário, mas meu nome não estava no mural da empresa. Tenho mais mágoas que alegrias. Porém, gosto do que faço e faço o que gosto.

Foto: Adenilson Nunes

Foto: Adenilson Nunes

 

  • Aloísio Queiroz, 42 anos, foi motorista de A Tarde de 2008 a 2012

A minha saída do A Tarde se deu por conta da crise na empresa, que causou uma redução do quadro de funcionários. Gostava do serviço, com exceção de certas matérias. Tem matéria que é uma beleza: esportes, cerimônias, coisas assim. As tensas são as de investigação, ter que buscar parentes das vítimas. É muito ruim. Já fui a várias bocadas da cidade, mas sempre com muito medo. Não é uma tarefa para qualquer um. Era o meu trabalho, tinha que ir.

Uma vez fui buscar um funcionário da gráfica do A Tarde em Arenoso. Era 01h da manhã, um traficante armado na entrada da rua falou alguma coisa que eu não entendi. Avancei com o carro. Ele veio em minha direção, xingando tudo que é nome, gritando “Pode voltar, pode voltar!!”. A minha sorte é que outra pessoa veio e implorou ao traficante que não fizesse nada comigo.

Outra vez, em Capelinha de São Caetano, fomos cobrir um caso de duplo homicídio. Mais uma vez um criminoso nos ameaçou com uma arma. Mais uma vez dependemos do apelo de alguém: “Já levaram os corpos, vocês estão fazendo o quê aqui?”. Era uma senhora que dava sinal para a gente sair dali o mais rápido possível.

Sempre colaborava com o repórter, ajudava, ficava à disposição deles, mas nunca quis saber de indicar fontes, não. Mostrar quem está certo, quem está errado, isso não presta. A não ser que seja indicar alguém para dar um depoimento sobre buracos na rua, casa alagada, aí tudo bem.

Hoje, graças a Deus, conheço Salvador muito bem. No começo, tive algumas dificuldades, mas passei meu primeiro ano só levando e buscando os funcionários em casa, assim aprendi tudo. Os repórteres mais veteranos também conhecem bem a cidade e me ajudavam a encontrar o endereço. Já outros, até sabiam como chegar a determinado local, mas não colaboravam. Como se pensassem que a minha função era conhecer todos os cantos, enquanto a deles era apenas apurar a pauta e escrever a matéria. Essa falta de colaboração atrasa o próprio trabalho do repórter! Isso para mim não era dificuldade, aprendo a trabalhar de todo jeito.

  • Pedro Viterbo, 54 anos, trabalha no A Tarde desde 2000. Foi motorista de 2000 a 2005 e, desde então, coordena o setor de motoristas

Desde 2009, a empresa Stilo presta serviço de gerenciamento dos carros e motoristas do jornal A Tarde. A empresa pode até mudar, mas o quadro de motoristas se mantém. Eu coordeno o setor juntamente com Bruno Souza. Aqui o motorista não só trabalha conduzindo repórteres e fotógrafos, mas também leva e busca funcionários em casa, o que acontece a partir das 22h.

Em 2012, uma nova diretoria assumiu o jornal, o que trouxe várias mudanças. Foi nesse ano que as sucursais foram extintas, e a empresa se desfez dos seus sete carros e sete motoristas no interior. Em Salvador, o número de carros passou de 16 para 12 e o de motoristas, de 32 para 26. Foi um forte baque na equipe. Com essa redução no quadro, a jornada, que é de oito horas, acaba sendo esticada. Sempre que há necessidade, eu ou Bruno cobrimos a programação e assumimos o volante.

Percebo que o número de saídas foi bastante reduzido. Em 1999, por exemplo, quando havia 16 carros somente em Salvador, houve vários momentos em que não ficava nenhum dos nossos automóveis no estacionamento. Penso que a dificuldade do trabalho está no relacionamento humano. Sempre tem aqueles que pensam que são superiores e que podem tratar o outro com grosseria.

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