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Da ponta da língua à ponta dos dedos

- 9 de março de 2016

A educação formal e o letramento de crianças surdas após a política nacional de educação especializada inclusiva

Texto e foto: Matheus Buranelli | Interpretação e tradução do vídeo: NAPE/Ufba

Para um bom entendedor, meia palavra basta, mas para os jovens entendedores da Associação Educacional Sons no Silêncio, basta um sinal. A AESOS, como é conhecida, é a única escola regular bilíngue de Salvador cuja primeira língua é a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) e a segunda é o português. A ONG e escola oferece o ensino fundamental e médio aos cerca de 190 alunos matriculados. Todos surdos.

No bairro vizinho, Davi de Freitas, 5, surdo desde que nasceu, tem aulas de todas as disciplinas com acompanhamento pedagógico diferenciado. O menino cursa o Grupo 5 e divide a sala com outras 13 crianças – entre elas, Esther, autista, e Alicia, cadeirante. O Centro Integrado de Educação e Lazer (CIEL) se propõe a ser uma escola inclusiva e atende a diferentes necessidades educacionais sem separar os estudantes por suas especificidades. Com nove crianças surdas matriculadas, a escola possui intérpretes para as aulas dos surdos não oralizados – alguns surdos, como Davi, usam aparelho auditivo e são capazes de se comunicar através da fala – e adapta as atividades para cada estudante.

Além das escolas sem fins lucrativos e de iniciativa privada, através do Decreto 5626, desde 2005 as instituições federais têm por obrigação atender a comunidade surda, fornecendo material didático apropriado para os estudantes, literatura surda para os professores, aulas com intérprete e salas com recursos apropriados para desenvolvimento do aprendizado. Cinco anos depois, a lei 7862/2010 asseguraria a educação bilíngue também para as instituições do município de Salvador.

Segundo a Secretaria Municipal de Educação (SMED), 63 crianças, cadastrados como surdas ou deficientes auditivas, estão matriculadas na rede municipal desde a Creche ao Ensino Fundamental I (dados de 01/03/2016). Esses estudantes representam aproximadamente 76% de toda a comunidade surda nas escolas públicas municipais e, segundo a SMED, a Escola Municipal Senador Antônio Carlos Magalhães é a instituição com mais surdos matriculados – onde é feita a interpretação simultânea das aulas para a LIBRAS desde o ano passado. Para a supervisora da coordenadoria de inclusão educacional e transversalidade da SMED, Tereza Holanda, 63, é uma característica da comunidade criar lugares para se estabelecer. “Pela própria cultura surda eles frequentam os mesmos ambientes. Por causa da especificidade da língua pouco disseminada, preferem se comunicar entre os pares”, justifica.

De manhã em um e de tarde em outro

O ensino para crianças surdas e estudantes surdos de maneira geral que dividem espaço com a maioria ouvinte deve fornecer ferramentas didáticas apropriadas para a comunicação não-falada. A professora de língua portuguesa como segunda língua da AESOS, Nanci Araújo, 41, leciona para surdos há 12 anos e destaca a importância de desenvolver uma pedagogia visual. Segundo ela, não há material didático específico para este público, salvo algumas interpretações em LIBRAS de obras literárias. “É importante trabalhar sempre com imagens contextualizadas dentro do texto e com material didático adaptado”, reforça quando questionada sobre a aplicabilidade da pedagogia visual.

Sua colega de trabalho Ludmila Lira, 42, coordena o Atendimento Educacional Especializado (AEE), previsto por resolução do MEC (algumas destas diretrizes já foram pautadas pelo ID 126), que auxilia os estudantes no contra-turno das aulas. Nesse atendimento todas as disciplinas são ministradas em LIBRAS, inclusive do português na modalidade escrita. Ludmila, no entanto, ressalta que o grande desafio é que muitas crianças surdas adquirem sua língua natural tardiamente e chegam ao AEE sem o domínio da língua de sinais.


Professores da AESOS comentam sobre a aquisição tardia da Libras

Segundo o neurologista e professor Oliver Sacks (1933-2015), 95% dos surdos nascem de famílias ouvintes e isto é comumente apontado como motivo pelo retardamento no aprendizado da língua de sinais e, consequentemente, do português e das demais disciplinas. Além da AESOS, o Centro de Capacitação de professores da educação e Atendimento das pessoas com Surdez (CAS) e a Associação de Pais e Amigos de Deficientes Auditivos (APADA) também funcionam como AEE e oferecem reforço escolar em LIBRAS no contra-turno.

Uma língua que não sai da boca

O chamado “beabá” é um exercício de aprendizado para ouvintes e, portanto, fundamentalmente fonológico, pois produz fonemas através da soma de letras (B + A = BA). Por esse motivo, na educação de surdos utiliza-se o termo “letramento” no lugar de “alfabetização” – associado ao processo de aprendizado do português através da fala.

Com exceção da Escola Municipal Senador ACM, as demais escolas da rede com crianças surdas matriculadas não dispõem de intérprete de LIBRAS e orientam os professores para reservar as cadeiras da frente para esses estudantes e falar na sua direção, por considerar que a maioria é cadastrada como deficiente auditivo e capaz de fazer leitura labial. “É uma dificuldade real o acesso à língua escrita. Precisa-se de uma metodologia e processo diferenciado”, explica Jamara Dourado, 45, professora de língua portuguesa como segunda língua da APADA.

No aprendizado do português, não raramente os estudantes aplicam nas frases as regras gramaticais da LIBRAS – fenômeno conhecido como interlíngua – e que, embora gere dificuldades, não é exclusividade do letramento de surdos. “Acontece também quando a gente quer aprender inglês”, explica Nanci. Em sua aula sobre o novo acordo ortográfico, os estudantes leem um texto projetado no quadro e assistem atentamente a professora sinalizar o mesmo texto em LIBRAS, desviando o olhar rapidamente para fazer anotações nos cadernos. Para ela, o motivo da dedicação é simples. Eles têm muito interesse em aprender português para se comunicar com os pais, que nem sempre sabem LIBRAS, usar o WhastApp e interagir nas redes sociais com seus amigos.

Abaixo os locais que atendem a comunidade surda e que foram mencionados na reportagem.

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