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Crowdfunding como forma de resistência

- 30 de julho de 2014

Alex Oliveira

Como viabilizar projetos sem auxílio de um edital ou patrocínio de empresas? Pode-se contar com a rede de amigos e interessados para colaborar e fazer uma ideia sair do papel? O financiamento coletivo, mais conhecido como crowdfunding, é uma maneira de fazer isso. O modelo pode ser classificado como uma derivação do conceito de crowdsourcing (crowd = multidão; source = fonte), ou seja, modelos que utilizam a colaboração dos usuários no desenvolvimento, solução e atuação de projetos.

A plataforma on-line de crowdfunding se popularizou nos Estados Unidos em 2008, durante a campanha à presidência de Barack Obama, chegando ao Brasil em 2011, com o site Cartase. Em sua campanha no Facebook, Obama usou um aplicativo conhecido como Mobilize, através do qual o eleitor podia apoiar financeiramente o candidato. A campanha de Obama arrecadou de mais de um milhão apenas com o crowdfunding. Desde então, as plataformas de financiamento coletivo ganharam novos sites, adeptos e foram responsáveis pela realização de inúmeros projetos.

Para participar, os idealizadores do projeto devem estipular o valor a ser alcançado para concretizar o trabalho e dividem essa soma em diferentes “fatias”. Com valor mínimo normalmente de R$ 10, cada “pedaço” oferece uma recompensa proporcional ao valor que se está pagando. Quando o objetivo geralmente não é alcançado no prazo de 60 dias, o valor financiado pelos apoiadores é devolvido. No Catarse, os projetos que tiveram a campanha financiada, pagam 7,5% da quantia recebida ao site. As recompensas oferecidas aos apoiadores dependem do tipo de projeto e se alternam entre agradecimentos nas redes sociais, DVDs e CDs autografados, ingressos, bottons, cartazes e até faixas de preço especiais para patrocinadores. “Elas são importantes para o site não ficar martelado como site de doação, e sim de troca de valores. Muitas vezes são trocas simbólicas”, explica Diego Reeberg, um dos sócios do Catarse.

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Para ser aceito na plataforma, o primeiro passo é ter um projeto bem estruturado e com objetivos claros. Em seguida, o idealizador deve inscrevê-lo e esperar aprovação. Os sócios garantem que o prazo máximo é de quatro dias úteis para a verificação. Se aprovado, o idealizador deve correr atrás de divulgação. Segundo Reeberg, os primeiros financiamentos são fundamentais. De acordo com Fabiane Borges, produtora do I Festival Internacional de Tecnoxamanismo, quase todos que apoiaram a campanha foram amigos dos organizadores ou estavam na rede do tecnoxamanismo. “Nossas redes de afeto são quase sempre a mesma quando se trata de redes, e todo mundo tem projetos para pedir dinheiro, então, fica um campo saturado. Se pede dinheiro para vários projetos para as mesmas pessoas. Mesmo assim, já é uma forma de alavancar certa independência dos editais e organizações privadas”, relata a produtora.

Produtor Rogério Big Bross conta com o Crowdfunding para apoiar o festival Bigbands 2014. Foto: Cubo Fotografia

Outro caso de crowdfunding é o Festival BigBands 2014. Rogério Big Bross, produtor do festival e responsável pelos lançamentos de bandas como Retrofoguetes, Pastel de Miolos, Ronei Jorge, The Honkers, Lou e Tritor, optou pelo crowdfunding como forma de financiamento. Criou uma campanha convocando os amantes do rock nacional para contribuírem com a realização da 6ª edição do festival. “O Bigbands tem a finalidade de trabalhar com bandas novas ou pouco conhecidas do público ou que nunca tocaram na cidade, por isso, atrair investimento privado se torna tarefa quase impossível porque nunca tem um grande nome popular no festival. Mesmo com ações do Bigbands vai à escola, que tem como objetivo aproximar a cultura da educação, não atraímos os investidores”, afirma Rogério.

O Festival Bigbands já realizou cinco edições de forma ininterrupta, de 2008 até 2012, e está retornando em 2014, por ter se firmado como um importante e representativo evento da musica independente na Bahia. Para sua realização, foi estipulado o valor de R$ 5 mil. O valor será utilizado na hospedagem, alimentação, translado das bandas de fora do estado e cidades do interior da Bahia, confecção de peças gráficas para o festival – banner, cartaz, flyers, camisas e bottons – e aluguel de equipamentos de som “backline” (amplificadores de guitarra e baixo) para complementar o sistema de som do local do evento.

Bottons na linha de montagem. Foto: Big Bross Produtora

O período da campanha é de 50 dias, contando do dia 19 de junho até o dia 8 de agosto. O projeto até o momento conta com 72 apoiadores e alcançou o valor de R$ 3.825, chegando a 65% do financiamento pretendido. Com 20 anos no mercado musical, Rogério diz que tratou do projeto como se estivesse produzindo um show, contando com os contatos pessoais de mailing e redes sociais, além dos diversos amigos que ajudaram na divulgação. Utilizou também a imprensa convencional, como rádio, jornal e TV.

Faltando 14 dias para o fim do projeto no Catarse, Rogério fez a seguinte publicação na rede social Facebook: “Ontem recebi uma mensagem de Leonardo Santos. Não o conheço pessoalmente. Ele disse que tinha uma banda, que gosta do meu trabalho, que no momento não podia contribuir com grana pois era estudante, mas disse que fazia cartazes e gostaria de fazer um para o 6º Festival Bigbands. Não conhecia o trabalho dele, dei uma enrolada, não disse nem sim nem não. Ele entendeu que sim, para minha felicidade, e me mandou ontem o seu flyer. Só digo uma coisa. Só o rock salva!”. Responsável pelo selo Big Bross Records, Rogério já ganhou dois editais no valor de R$ 50 mil, em 2009 e em 2012. Contudo, o produtor afirma que acha importante não depender apenasdesses mecanismos, que o festival deve acontecer do tamanho que ele pode ocorre naquele ano, com verba ou não.

Flyer realizado para a 6ª edição do Festival Bigbands. Arte: Leonardo Santos

Já o músico baiano Lucas Santtana optou pela plataforma Embolacha para financiar os custos básicos da finalização do seu novo disco através do crowdfunding. Intitulado Sobre noites e dias, o sexto álbum de sua carreira será lançado no Brasil em agosto e já tem marcado na agenda o dia 13 de outubro para o lançamento fora do Brasil.

“Várias musicas do disco novo falam justamente sobre essa vida contemporânea, sobre redes sociais, sobre como as máquinas estão cada vez mais presentes em nosso dia a dia, como elas tomam o nosso tempo, das mudanças sexuais em rumo, enfim. Acredito que tudo está ligado e que tudo se transforma o tempo todo. E isso tem um lado bom. O que geralmente acontece é que nós vamos ficando velhos e querendo reter o tempo com as coisas que eram boas na nossa época, quando na verdade precisamos estar abertos às mudanças, e tudo isso me influencia e eu tento influenciar tudo isso também. É mão dupla sempre”, relatou Lucas.

Capa do disco novo Sobre noites e dias de Lucas Santtana. Foto: Caroline Bittencourt

O compositor conseguiu arrecadar 120% em relação ao que foi pedido, tendo como meta o valor de R$ 30 mil. As recompensas variavam desde download do disco com o nome nos agradecimentos, ingresso para show de lançamento com acompanhante, CD autografado e brinde no camarim. “Olhei vários outros projetos para ver o que ofereciam de contrapartida e fui vendo o que melhor se adequava para mim, que eu daria conta de cumprir e que seria interessante para as pessoas contribuírem”, afirmou Lucas.​

A lista de participações especiais no novo trabalho é extensa e inclui a atriz francesa Fanny Ardant, o produtor Vicent Segal, do Oslo String Quartet, a atriz/cantora Camila Pitanga, Bi Ribeiro, o rapper De Leve, os maestros Letieres Leite e Luis Felipe de Lima, além de Kiko Dinucci, Thiago França e Juliana Perdigão. Faltando 45 dias para o fim do processo de arrecadação, o músico presenteou o público e adiantou a mixagem de uma das músicas do novo álbum, disponibilizando em seu SoundCloud, a faixa Partículas de Amor, canção que conta com o violão como base, distanciando-se dos ares melancólicos e da estética que permeia O Deus que devasta mas também cura, seu último trabalho de estúdio, lançado em 2012.

No Brasil, o Catarse preenche uma lacuna no campo social. Diferente dos Estados Unidos, onde a demanda nesse tipo de site é maior pelo consumo. Para Rodrigo Maia, sócio do Catarse, o crowdfunding é um campo em crescimento e de impacto social no país. Por se tratar de uma realização pessoal e um sentido de co-criação, o envolvimento do usuário com o projeto no financiamento coletivo transcende a questão financeira e parte para o engajamento para viabilizar a proposta que ele decidiu apoiar.

Numa pesquisa realizada no site do Catarse, 140 mil pessoas já apoiaram pelo menos um projeto, divididos entre 52% em fomento de projetos artísticos e culturais de forma independente, 41% com viés social e/ou ambiental e que fortaleçam comunidades de forma responsável e solidária e 24% com viés empreendedor e que viabilizem novas empresas e produtos.

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