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Estrada da Perdição – Diário Incompleto da Flica

- 21 de novembro de 2011

Crônica do jornalista Davi Boaventura*

Veja só, eu casei com a Festa Literária Internacional de Cachoeira, mas, confesso, fui um marido infiel. Vi bem pouco da programação paralela, perdi a melhor palestra, a de Marcelino Freire e Ronaldo Correia de Brito sobre contos, nem em Cachoeira dormi. Minha sorte é ter, no caso, uma esposa generosa: ela, a Flica, me preparou na cozinha um cardápio variado, eu comi só o que o estômago suportou.

Fernando Morais e Miguel Sanchez Neto formaram a cestinha irresistível de pão com alho, abriram o apetite. As “páginas baianas”, a salada com alface, saudável, mas você come por obrigação. Ana Maria Gonçalves, o suco certo na hora errada, o cliente manda o garçom trocar. Marcelino e Ronaldo, a carne vermelha suculenta, ninguém resistiu. O mundo digital e o fetiche do papel, o filé à parmegiana. Reinaldo Moraes, a sobremesa doce demais. E aí o restaurante mandou trazer a conta.

Trocando em miúdos: a Flica fez o possível para promover uma refeição farta e variada, em parte conseguiu, em parte perdeu a mão no sal. Mas vamos esquecer essas comparações baratas e sejamos claros. Foi bom? Foi. Teve erros? Teve. Pode melhorar? Pode. E nos próximos anos? Eu estarei lá. Por quê?

Veja só, a Festa Literária Internacional de Cachoeira conseguiu ser, na medida do possível, o que ela se propôs ser. Havia um clima positivo de discussão, de ideias circulando. Havia um clima positivo de troca de informações e criação de laços, fossem afetivos ou racionais, havia um senso de vida. E isso tanto nas palestras quanto nas mesas dos arredores do Convento do Carmo, local arranjado de última hora que se saiu melhor que a encomenda. Era um ambiente, por falta de uma palavra mais adequada, delicioso.

Nos primeiros dias, no entanto, não foi bem assim. Durante a “semana de trabalho”, a Passarela do Papel, como alguém sugeriu chamar a rua onde se concentrava as atividades, em frente à Casa da Câmera e Cadeia, ficou boa parte do tempo vazia. Na noite de abertura, por exemplo, fora as autoridades e alguns visitantes aleatórios, quem mais movimentou o lugar foi um grupo que pedia a criação de um estado palestino já (!!), na velha toada “proteste do distante, esqueça o problema do seu lado”.

Essa atmosfera meio marasmo desanimou no início, não vou mentir. Mas o decorrer do evento trouxe impulso e o final de semana fez valer à pena o esforço da viagem. No sábado, as ruas em torno do Rio Paraguaçu estavam tomadas, os carros e as pessoas se acumulavam, os bares ficaram cheios. Não fosse o atendimento péssimo dos restaurantes, eu diria que Cachoeira viveu seu dia de Parati. A discussão da tarde sobre o livro digital também contribuiu para melhorar o astral, exceto do Bob Stein, o papa do e-book que no final da palestra virou presença virtual, me perdoe o trocadilho.

Domingo, a mesma sintonia. Pela manhã, a palestra sobre poesia teve polêmica, louco do auditório, declamações empolgadas. À tarde, Victor Mascarenhas e Reinaldo Moraes fizeram a palestra que eu mais esperava, e a que mais me decepcionou. Mas um sujeito no microfone reclamando que a filha não gostava de sexo (!!!!) fez o trabalho dos autores. E então peguei a estrada, via Santo Amaro. A estrada que três dias antes eu havia me perdido e enfrentado um aperto violento…

Veja só, eu tinha passado uma quinta-feira ótima. Mesmo com a cidade vazia, ou talvez por isso, circulei por vários pontos da programação paralela – o Pouso da Palavra, do saudoso Damário Dacruz, a exposição de fotos da Solisluna – conheci Marcelino Freire, ele me presenteou com um livro, bati vários papos deliciosos com amigos jornalistas, uma festa. Na hora de ir embora para Cruz das Almas, onde eu estava hospedado, por falta de vagas nas pousadas que procurei, pensei em dirigir por Belém, distrito de Cachoeira, para então chegar à BR-101. Pois bem, me esqueci de fazer uma curva.

Andei, andei, andei, até que parei em Santo Amaro. Perguntei em posto qualquer: A BR tá longe? A frentista me respondeu que sim. A 101?, continuei. E ela me deu a notícia triste: Não, a 324. Entrei em pânico. Mas continuei, fazer o quê? Retroceder nunca, render-se jamais. Achei a saída, para dar de cara com um engarrafamento de quase 10Km, culpa das reformas na pista.

Meu carrinho velho quase não aguentou. Primeira marcha, segunda marcha, primeira marcha, não acabava nunca. Eu, exausto, três horas em um percurso que deveria durar quinze minutos. Então me para do lado um micro-ônibus escolar, levando senhoras para as aulas noturnas. Eu lá, quieto, uma delas bota a cabeça pra fora: “Ei, garoto. Você tá com sono, não quer me levar junto, não? Vou descer no pedágio e aí você me pega. Eu cuido de você…”

 

*Davi Boaventura é jornalista formado pela Facom. Escreve no Cachorro Abandonado.

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