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Confissões de call center

- 20 de fevereiro de 2014

Quando o desafio é o outro lado na vida dos atendentes 

Texto: Tiago do Nascimento
Ilustração: Elton Carlos | www.eltoncarlos.com.br

“Uma vez eu estava esperando uma ligação muito importante. Havia feito um processo seletivo para uma empresa e estava muito esperançoso de receber a ligação avisando da minha contração. O telefone então tocou. “Oi, senhor Ivan, aqui quem fala é fulana, da empresa ‘x’ –  tudo bem? Devido ao seu bom relacionamento com nossa empresa queremos lhe oferecer um ótimo benefício. Você acaba de ganhar um crédito que pode ser resgatado a (…)”. Antes que ela terminasse, Ivan disparou: “moça, não quero nenhum empréstimo. Estou esperando uma ligação muito importante e você está me atrapalhando.” O depoimento do engenheiro Ivan Medeiros (29), é apenas um dos milhares de casos de pessoas que já foram abordados por um desses atendentes de telemarketing. Mas será que você nunca se perguntou quem estará do outro lado da linha? Será que ele (ou ela!) tem os mesmos problemas que você? O que leva uma pessoa a procurar um emprego desses?

No caso da estudante de fisioterapia Tayana Freitas (23), sua aventura no mundo do call center começou por causa de um Iphone 4s. “Eu estava obcecada pelo Iphone. Resolvi pedi um para meu pai. Ele disse: “mas minha filha, seu celular ainda está novo. Eu não vejo necessidade de você comprar outro. Sem contar que a mensalidade da sua faculdade aumentou. Você vai ter que esperar um tempo”. Imediatista que sou, pensei em passar o Iphone no cartão da minha mãe escondido, mas logo desisti da ideia. Afinal, quando viesse a fatura ela me comeria viva. Um belo dia acordei às seis horas da manhã e liguei a TV no momento que  passava uma matéria sobre vagas de telemarketing em Salvador. Eram 800 vagas no total, remuneração de um salário e sem exigir nenhuma experiência. Eu pensei: formou, vou me jogar. Em dois meses vou poder comprar meu Iphone”, assim esperava a estudante.

Tayana se lembrou de uma amiga que trabalhou no tele atendimento de uma financeira e resolveu pedir a opinião dela. Paty largou de cara: “você é louca! Aquilo ali não é coisa de Deus. Nem por todos os Iphones do mundo eu te aconselho a trabalhar num inferno daqueles.” A estudante de pronto respondeu: ” Qual é Paty, não deve ser tão ruim assim, e outra: não vou ficar lá a vida toda. Quando eu juntar o dinheiro do meu Iphone eu me pico”, disse.

Tayane assumiu a função de agente de teleatendimento sete dias após sua entrevista. O trabalho de fato era muito árduo e a rotina bastante repetitiva. “A empresa determinava uma quantidade enorme de crédito a ser vendido. Eu respirava fundo e pensava: impossível. Houve um dia em que trabalhei das oito horas da manhã às 10 da noite. A chefe do departamento cobrava toda hora. Era uma pressão filha da p. na cabeça. No entanto, eu fazia o que podia. Para não desistir, eu passava quase todo dia na loja para namorar com o Iphone e às vezes abria a imagem dele no computador que eu usava”, confidenciou a jovem.

Como tudo na vida tem seu lado bom, com o telemarketing não podia ser diferente. Tayana contou que quando as metas eram batidas a equipe saia para comemorar. A experiência também a tornou mais humana. “Quando a meta era alcançada, a gente saia para beber. Pela primeira vez na minha vida, eu estava me sentindo útil. Eu passei também a dar mais valor às coisas que meus pais me davam. Eu estava ali por pura vaidade, por um simples Iphone, enquanto tinha gente lá que sustentava até filho com o salário que recebia”, relatou.

Esse é o caso do músico Saulo Freitas (26 ). “Eu vivia praticamente da renda dos meus shows que só acontecem nos fins de semana. Ainda tenho que pagar a pensão do meu filho. Como sempre me dediquei a música, nunca trabalhei com carteira assinada. Por outro lado, a grana dos shows não estava mais dando. Então tive que procurar um emprego. Quando me pediam para falar da minha experiência profissional eu tremia na base. Olha, sou músico de barzinho. Nunca tive emprego formal. Eu sentia até mesmo uma ponta de preconceito. Tentei uns 10 empregos até parar no setor de call center. Aqui acontece de tudo. Tem gente que liga pra xingar, outros ligam para pedir informações que nem sempre competem a nós informar e sem contar no meu chefe que é chato pra caramba. Mas, como eu faço qualquer coisa pelo meu filho, suporto tudo até o dia em que eu lançar um disco de sucesso e lagar essa vida mais ou menos”, falou, zuando, o músico que há dois anos atua como atendente de telemarketing.

Mas, há quem goste do trabalho. É o caso de Diana Marques (31). “Eu nunca tive dificuldades com o meu trabalho, muito pelo contrário, faça-o com o maior prazer. Já aconteceu cada uma comigo. Certa feita um cidadão disse que estava apaixonado pela minha voz. Todo dia eu recebia uma ligação dele. Por curiosidade resolvi perguntar como ele fazia para me localizar. Ele me disse que fazia várias ligações até cair no meu ramal. Um dia ele quis me presentear e eu educadamente aceitei. Toda semana chegava um pacote diferente no trabalho. Ganhei CD, perfumes, roupas e até calcinha ele mandou. Cheguei até passar meu número pessoal pra ele, porém não tive coragem de conhecê-lo pessoalmente. Depois de muito insistir e eu recusar um encontro ele acabou parando de me ligar. E foi desse admirador que ouvi a declaração mais bonita da minha vida que dizia assim: se Deus falar, ele tem a sua voz”.

Com o passar do tempo, Tayane conseguiu comprar o seu tão sonhado Iphone; Saulo continua fazendo show em barzinho, mas ainda não conseguiu lançar seu disco de sucesso; Diana está cursando rádio e TV, e pretende ser locutora no futuro. Já Ivan, o cliente do início desta matéria,  até hoje não recebeu aquela tão importante ligação…

Vários caminhos; um call center.

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