Comunidades de matriz africana lutam por prática religiosa em espaços públicos de Salvador

Geovana, Luana, Victor Hugo e João Marcelo - 1 de dezembro de 2021

Intervenções em locais comunitários preocupam terreiros que dependem da vegetação natural para exercer cultos

Por Geovana Oliveira, Luana Lisboa, Victor Hugo Meneses e João Marcelo Bispo

Até hoje, a vodunsi Mãe Cacau se emociona ao falar sobre o início das obras para a Estação Elevatória de Esgoto na Lagoa do Abaeté. Quando as máquinas chegaram para cavar o terreno, três árvores sagradas foram tombadas. A Árvore do Louro, a Aroeira e um Cajueiro, que eram divindades para o povo de santo, foram arrancadas sem cerimônia. 

Mãe Cacau conta, com a voz embargada, que enquanto essas árvores caíam, uma jiboia se aproximou. “Aquele momento em que as árvores estavam sendo tombadas pela máquina, e que apareceu aquela jiboia, foi um momento muito triste para nós, de muita dor. O Poder Público, que deveria estar aqui para nos servir, nos trata dessa forma, com esse racismo religioso”.

No entorno da Lagoa do Abaeté, em Itapuã, há mais de 50 terreiros de Candomblé, segundo a vodunsi. De matriz africana, as práticas da religião estão diretamente ligadas à natureza. No entanto, as últimas intervenções do Poder Público podem ameaçar esse espaço. 

Desde 2020, moradores de Itapuã e a Comissão do Povo de Santo se mobilizam contra a Estação Elevatória de Esgoto no local. Projeto da Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (Conder), aprovado pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), a EEE pode apresentar diversos problemas operacionais. A afirmação foi feita pelo próprio engenheiro técnico da Embasa, Wladmir Conceição, que deu parecer favorável ao projeto. 

A partir de uma falha técnica, a estação pode contaminar as águas escuras da Lagoa e a areia branca das dunas que a cercam, as mesmas cantadas por Dorival Caymmi e Caetano Veloso. 

“Foi comprovado que poderá haver um acidente de explodir essa estação. E para onde vão esses dejetos? Vai para a lagoa, as águas. Nós cultuamos a divindade Oxum, e como vamos cultuar uma divindade dentro de um espaço de uma lagoa repleta de dejetos?”, reclama a vodunsi. 

Mãe Cacau tem 57 anos e mora nos arredores do Abaeté há 50. Filha de baiana de acarajé, foi uma das lavadeiras da Lagoa durante a infância e adolescência. Por muito tempo, as águas foram também seu sustento. O mesmo aconteceu com o professor de história Eraldo Souza, 51, também filho de baiana do acarajé, que lavava os seus feijões na lagoa. 

Eraldo foi um dos organizadores das duas manifestações contra a construção do elevatório, junto à Comissão do Povo de Santo. A última, no dia 26 de setembro deste ano, pedia que a comunidade fosse ouvida sobre o projeto. Desde 2020, eles apresentam soluções alternativas e ecológicas à EEE.  

Procuradas pela reportagem, a Conder e a Embasa responsabilizaram uma a outra pela estação elevatória, mas nenhuma respondeu aos questionamentos.

O drama no Abaeté, entretanto, continua. E ele traduz uma preocupação de todas as comunidades tradicionais de Matriz Africana em Salvador. Com o tempo, os espaços públicos com vegetação natural se extinguem, e outros sofrem intervenções mesmo da gestão pública. Entre as obras para construção do BRT até o projeto de concessão privada dos parques de São Bartolomeu e Pituaçu, os cultos presentes na capital baiana desde que era capital do país, ficam cada vez mais restritos.

Do início

Desde que as primeiras comunidades africanas chegaram em Salvador, na Bahia, no século XVI, elas trouxeram traços de identidade religiosa. Escravizadas, no entanto, e submetidas a uma imposição da crença católica no processo de colonização, não eram permitidas a expressar sua fé.

Com isso, os cultos e práticas das religiões de matriz africana já começaram afastados dos grandes centros políticos e sociais na capital baiana. Ao longo do século XVIII e principalmente no século XIX, lugares periféricos, onde ficavam nascentes, riachos, lagoas e matas, foram escolhidos para assentar os terreiros. 

Quem conta é o professor de história Rafael Dantas. De acordo com ele, foi assim que espaços como Lagoa do Abaeté e Parque São Bartolomeu foram ganhando importância para a comunidade. 

Um dos primeiros terreiros de Salvador, no entanto, foi fundado por africanas no bairro da Barroquinha, no centro da cidade. Segundo pesquisadores, o terreiro conhecido como Ilê Axé Airá Intilê funcionava atrás da Igreja Nossa Senhora da Barroquinha, que hoje abriga o Espaço Cultural Barroquinha.

“Mas depois eles vão ser expulsos, vão para outros lugares por conta das modernizações do entorno urbano. E vão para onde? Vão para lugares mais afastados. Então cada vez mais essas comunidades africanas/baianas vão buscando espaços afastados do centro para poder fazer os seus cultos”, conta o historiador. 

Do Candomblé da Barroquinha, então, saíram três outros terreiros: Casa Branca do Engenho Velho — reconhecido como o mais antigo do Brasil —, Gantois e Ilê Axé Opô Afonjá. 

Esse cenário de deslocamento ainda é recente, do ponto de vista histórico. No século XX, a construção da avenida Mário Leal Ferreira, pelo então prefeito Antônio Carlos Magalhães, exigiu a retirada de um terreiro do local, que organizava cultos no Vale do Bonocô — como hoje é popularmente chamada a via. 

“O nome Bonocô é uma homenagem ao terreiro que ali ficava. Inclusive ACM prometeu (diz a história) para a mãe de Santo que a avenida seria Bonocô. E acabou que ele sempre chamou Bonocô, apesar de ser Mário Leal Ferreira. Então ele cumpriu a promessa pelo menos da parte dele”, conta Rafael Dantas.

No livro Iconografia dos Deuses Africanos no Candomblé da Bahia, o professor Waldeloir Rêgo escreve: “Em outro ponto da cidade onde existe uma baixada chamada Baixa do Bonocô, antes Gunocô, que é uma corruptela de Igunnukô, os negros se reuniam à noite para fazerem o ritual de Baba Jgunnukô, em volta de uma árvore sacralizada, distribuído eghó (milho branco cozido) enquanto dava meia-noite, quando Baba Igunnukô aparecia”. 

A árvore sagrada para o culto ao Egungun, no entanto, se perdeu. E o Candomblé também continuou perdendo espaço. As árvores centenárias da Salvador verde do século XVI foram sendo derrubadas e destruídas com o avanço dos anos.

“No século XX, na época de Mangabeira e ACM, tínhamos ainda a preocupação de preservar o mais antigo. Inclusive, o próprio ACM era do Candomblé. Católico, mas ligado ao Candomblé. Mas por conta do crescimento impulsionado pelo setor imobiliário, muitas árvores foram perdidas”, diz o historiador. 

As obras do BRT, iniciadas em 2018 sob a gestão já de ACM Neto, também foram responsáveis por derrubar árvores sagradas. “Ali são árvores que não podem ser cortadas. Árvores muito importantes para o candomblé e para a cidade do Salvador. Não só importantes para o candomblé, como para a história da cidade, porque são testemunhas silenciosas das transformações urbanas e precisam ser preservadas”. 

São Bartolomeu 

Como a Lagoa do Abaeté, o Parque São Bartolomeu também é um dos poucos espaços que ainda concentra área verde para as práticas do Candomblé. Localizado entre o bairro de Pirajá e a Enseada do Cabrito, no Subúrbio Ferroviário, é uma dos maiores espaços para o culto de religiões de matriz africana de Salvador, uma vez que possui uma área de 75 hectare – cerca de nove campos de futebol –  remanescente de Mata Atlântica em zona urbana. 

É também onde está situada a Mata do Urubu, onde se instalaram os primeiros índios tupinambá na cidade e, depois, centenas de quilombolas, no Quilombo dos Urubus.

Por isso, desde o final de 2020, quando foi anunciada uma parceria entre o Governo do Estado e o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) no programa de Concessões de Parques Naturais, não só religiosos, como moradores e ativistas se mobilizaram contra a concessão do local para a iniciativa privada.

Foi organizada a Frente Popular em Defesa do Parque e um ebó coletivo reuniu desde pesquisadores ambientalistas a políticos como Maria Marighella e Hilton Coelho em um ato, em julho deste ano. Ebó é uma sequência de rituais feitos para agradar os Orixás, no qual se busca corrigir “deficiências” do ser humano ou chamar atenção para uma questão.

Foto cedida à reportagem: Nara Gentil/CORREIO

Membro da Frente Popular, Eduardo Machado, 37, acredita que o nome “concessão” é fachada. Para o candomblecista, a falência do local é permitida pelo Governo do Estado como uma estratégia para a privatização e a decisão não foi propriamente discutida com os populares.

Na prática, a concessão privada difere da privatização por não se desfazer dos equipamentos do lugar e apenas ceder o seu gerenciamento para a iniciativa privada por determinado período de tempo. A privatização consiste na venda de ativos e a transferência em definitivo para o parceiro privado, isto é, o poder público efetivamente vende o bem e perde o direito de propriedade. Na concessão, os bens e serviços a serem explorados são devolvidos à Administração Pública ao final do contrato, que pode ser de 15, 20 ou 30 anos.

“A comunidade sempre cuidou do parque, gerido com gestão compartilhada com a Conder [Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia], e queríamos fortalecer isso. A gente gere há anos para melhorar, desenvolver e o estado passa para uma empresa privada que só tem interesses comerciais? Onde fica a representatividade histórica e simbólica para a população negra de toda a Bahia, para o Brasil, para o mundo?”, questiona.

Ele lembra que a preservação dos sítios sagrados é também a preservação da memória dos povos originários e costumes africanizados em períodos de colonização e violência racial mais escancarada.

Não é preciso dizer que quando perguntado sobre se sentia que o Estado negligencia a prática da sua religião, a resposta foi afirmativa. “Totalmente. Sobretudo quando ressalta em suas políticas institucionais práticas de benfeitoria e escolha pelos símbolos de uma religião em detrimento das outras fitas práticas religiosas”, diz.

Para Paulo Henrique Carvalho, 37, morador do Tororó, isso é um reflexo da falta de políticas públicas que não consideram a proteção dos mais vulneráveis e de sucessivos governos negligentes, quando esses não são os próprios agentes da própria discriminação. Cita como exemplo o antigo prefeito de Salvador, João Henrique, evangélico, e “praticante da discriminação contra os candomblecistas”.

Por isso, ele, que durante anos costumava utilizar espaços públicos naturais para a prática, agora evita. “A diminuição de áreas verdes e das águas na cidade, a perseguição religiosa, inclusive da polícia militar e de religiosos cristãos, e um poder público que não se responsabiliza por construir ambientes preparados para isto reforça o preconceito e nos obriga a ir cada vez mais longe do centro da cidade para realizar os ritos, como os ebós, por exemplo”, critica.

Na Bahia, além do Parque, também estão no plano de concessão a Serra do Conduru – entre Ilhéus, Itacaré e Uruçuca -, Parque das 7 passagens – localizado em Miguel Calmon – e o Jardim Zoobotânico Getúlio Vargas (Jardim Zoológico) e o Parque de Pituaçu, em Salvador.

Foto cedida à reportagem: Nara Gentil/CORREIO

Procurado, o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), autarquia da Secretaria do Meio Ambiente (Sema) e órgão executor da Política Ambiental do Estado da Bahia, afirmou, através de assessoria, que não existem novidades ou avanços sobre o tema, mas encaminhou um material publicado em fevereiro de 2021, à época de um dos primeiros contatos da instituição com o BNDES.

Nele, Márcia Telles, diretora-geral do Inema, afirma que é favorável esse tipo de parceria, principalmente quando se tem como principal objetivo a manutenção e preservação da vasta e rica área ambiental baiana. Além disso, a gestora promete que, caso seja aprovado após estudos e análises de viabilidade, o processo se dará por meio de uma concessão e envolverá discussão com as comunidades do entorno.

“Posteriormente nós vamos envolver as comunidades do entorno dessas áreas para que também participem do processo. É interessante deixar claro que eles também são importantes em todo o contexto, já que vivem ao redor dessas regiões e muitos vivem do trabalho que é desenvolvido direta ou indiretamente nesses parques”.

Até então, a discussão não foi feita com as comunidades.

O documento ainda contém trecho que considera a concessão de uma Unidade de Conservação uma “típica relação “ganha-ganha” entre o poder público e privado”, onde a “comunidade se beneficia através do aumento da oferta de emprego”, além de possibilitar um melhor ambiente de negócios para o “empreendedorismo local”.

O BNDES, por sua vez, lançou uma nota à imprensa em janeiro deste ano, na qual afirma que a concessão vai atrair investimentos para aprimorar a qualidade dos serviços prestados nos parques, com a “consequente melhora da experiência dos visitantes”.

O Banco também promete manter a preservação das unidades e afirma que as parcerias atrairão investimentos pelo operador privado que “desonerarão os cofres públicos”, além de estimular o turismo sustentável e “desenvolver as economias locais nas áreas de influência de cada parque”.

Sem folha, não há orixá

Mas não só do Parque e da Lagoa vivem os afroreligiosos de Salvador. Pelo contrário, toda natureza é sagrada. Até o profano é sagrado, diz Tata kwa Nkisi Mutá Imê. O administrador do Terreiro de 17 mil metros quadrados em Cajazeiras, o Nzò Mutá Lombô ye Kaiongo, explica que os minerais e a água, vento, fogo, terra são os elementos nos quais as representações ancestrais se fortalecem e, por isso, os praticantes costumam praticar místicas e cultuar as liturgias onde houver o verde. Sem folha, não há orixá. Não há encantado.

Os locais de maiores concentrações de natureza são, portanto, sítios sagrados. Estratégicos para qualquer culto afro religioso e afroindígena.

Entre historiadores, especialistas e praticantes das religiões de matriz africana há a dificuldade de mapeamento das árvores sagradas em Salvador. A tarefa é difícil, dada a quantidade e diversidade dessas árvores. É possível, entretanto, encontrar algumas das plantas já demarcadas por orixás. São aquelas que tem ojás amarrados ao meio, tecidos brancos sagrados, em pedido de paz e respeito à liberdade de crença.

Elas marcam presença tanto nos grandes parques quanto em praças e avenidas como o Largo do Campo Grande e a Lucaia e só aumentaram em quantidade após a Alvorada dos Ojás, realizada na última sexta-feira (19) pela primeira vez desde o início da pandemia.

“No Dique do Tororó, por exemplo, a maioria das árvores são muito sagradas, mas toda natureza também é. Barrigudas, pés de para-raios, iroco, baobá, gameleira, arueira, genipapeiro, mangueira, jaqueira, todas elas pertencem a determinados orixás, ou olodum, dependendo da nação”, explica.

Para ouvir um trecho de áudio de Tata Mutá Imê: 

Essas plantas utilizadas nos cultos sagrados, no entanto, têm desaparecido da cidade, segundo o presidente do Conselho Municipal da Comunidade Negra (CMCN), professor Evilásio da Silva Bouças.

“Com o desmatamento, elas vão sumindo. Existem algumas plantas tipo Candeia, que a gente encontrava aqui no centro. Também Mucumbi e outras que são praticamente árvores, são plantas de grande porte que dão na mata — a gente tinha aqui e hoje tem certa dificuldade para recolher”, conta enquanto lembra de mais uma planta que virou de difícil acesso: Pau-pombo.

Com o tempo, as folhas para os cultos passaram a ser compradas nas feiras, como a de São Joaquim, mas há uma questão: “as pessoas que tiram não são religiosas, e não tem o mesmo olhar que a gente para fazer essa coleta”. 

Evilásio conta que por volta de 2018, pensando nisso, foi feito um trabalho de observação religioso pela Secretaria de Reparação e a Secis (Secretaria Municipal de Sustentabilidade, Inovação e Resiliência), junto com o Conselho. “Foi criado um projeto de plantas sagradas — no caso era para criar em vários terreiros que ainda têm um pouco de espaço de mata para fazer essas plantações dessas folhas que têm desaparecido”. 

O projeto Hortas Sagradas migrou também para o Jardim Botânico de Salvador, que prevê, em parceria com o CMCN, ter um espaço para as plantas usadas pelas religiões de matriz africana. Lá, além de um espaço de preservação, parte será reservada à colheita. 

“Isso tem sido trabalhado para que na hora que o religioso venha a fazer a colheita, não tenha impedimento”, afirma. De acordo com ele, devido à organização nos parques municipais como da Lagoa do Abaeté, São Bartolomeu e mesmo o parque da Cidade, que delimitam quantidade, acontecem certos constrangimentos. 

Libertação 

O monumento da Pedra de Xangô, localizado no bairro de Cajazeiras, representa libertação. A tradição oral conta que o rochedo ficava encravado num rio e o separava em duas partes: uma rasa e outra funda. Passando pela fenda no centro do monumento, negros escravizados em fuga conseguiam enganar feitores e escapar do cativeiro. Assim, a Pedra era vista como um portal para a liberdade.

Apesar de não haver registros, acredita-se que o monumento tenha sido um local de quilombo e de práticas religiosas tanto africanas quanto indígenas. Após conquistarem a liberdade, os escravizados passavam a cultuar divindades como Niksi e Orisá na formação rochosa, tornando a Pedra de Xangô, além de um símbolo de resistência, um local sagrado.

A explicação está presente na dissertação de Maria Alice Pereira, advogada e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), que escolheu o monumento como objeto de pesquisa. Para ela, a importância da Pedra de Xangô para a cultura soteropolitana é inegável.

“Ela tem toda uma história de um povo negro que chegou no país como escravizado. Para o povo negro desta cidade, a Pedra é uma prova de todo um legado ancestral. Por isso, a comunidade sempre lutou para que ela fosse preservada”, diz Maria Alice. 

O monumento já sofreu diversos ataques de vandalismo. Em dezembro de 2018, por exemplo, 100 kg de sal foram jogados na Pedra, ato que foi novamente realizado no mês seguinte. Os casos foram considerados intolerância religiosa pois o sal é visto como um símbolo de purificação, dando a entender que o local estaria impuro.

Foto: Juscelino Paxeco – Site Pedra de Xangô/Reprodução

Além disso, a própria existência da Pedra de Xangô já foi colocada em xeque pelo poder público. Em 2005, o monumento chegou a ser desnudado e quase foi implodido para dar espaço à construção da avenida Assis Valente. Após protestos da comunidade, a Pedra foi poupada, e um movimento em sua defesa foi criado.

A partir daquele ano, a comunidade local passou a se articular para garantir a preservação da Pedra de Xangô foi criado. Além de se manifestarem contra ataques e realizarem eventos para demonstrar o valor do monumento, uma pauta tornou-se a principal do grupo: queriam que o monumento sagrado fosse classificado como patrimônio cultural.

Foi após conhecer essas histórias que Maria Alice decidiu seguir para a área da arquitetura, em 2011, e transformar a Pedra de Xangô em seu objeto de pesquisa. Sua vontade era ajudar as pessoas da comunidade a conquistar seu objetivo de garantir o tombamento do local.

E conseguiu. Sua dissertação, publicada em 2017 e intitulada “Pedra de Xangô: um Lugar Sagrado Afro-brasileiro na Cidade de Salvador”, transformou-se em livro e serviu de subsídio para o tombamento do local, realizado em maio daquele ano, junto à Fundação Gregório de Matos. Além da pedra, toda a região de 17 hectares onde ela está também foi tombada.

Na ocasião, a Prefeitura de Salvador afirmou que, além de ser elemento de resistência cultural, a Pedra de Xangô é aglutinadora da teia de terreiros do conjunto de bairros de Cajazeiras.

Isso porque o local serve como palco de rituais religiosos para diversos terreiros que não possuem vegetação em seus espaços, dependendo de locais públicos ao ar livre para exercer plenamente sua atividade religiosa. Por isso, preservar espaços como a Pedra de Xangô é fundamental para essas comunidades.

Hoje, a população acompanha a implementação do Parque Pedra de Xangô no local, que já está com obras avançadas e tem previsão de entrega para janeiro de 2022. A obra é a primeira de referência total a religiões de matriz africana.

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