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Cinemas de rua: decadência dá lugar à prática sexual no escuro

- 10 de dezembro de 2014

Alexandre Galvão e Naiana Ribeiro

Foi-se o tempo em que os cinemas de rua faziam parte da programação de quem tinha dinheiro. Além de sediarem grandes eventos, eram estabelecimentos de socialização e de apreciação da arte. Em 1920, por exemplo, Salvador contava com nove cinemas de rua. Hoje, restam apenas três. Dois deles, o Cine Tupy e o Astor, podem ser considerados “points de pegação”, onde é comum a prática sexual na sala de projeção, nas poltronas e nos banheiros.

De acordo com o urbanista João Soares Pena, na década de 1950 a circulação de pessoas e veículos no Centro era muito intensa. Após o encerramento das atividades comerciais e serviços nos fins de tarde, o lugar ficava animado, pois muitos se deslocavam entre a Praça da Sé e a Praça Castro Alves. “À noite, a movimentação tinha outras razões, quais fossem os cinemas, que funcionavam até meia-noite, ou atividades não tão aceitas durante o dia”, afirma em artigo.

Já a segunda metade do século XX foi marcada pela decadência dos cinemas de rua. Segundo Pena, alguns destes tornaram-se especializados no gênero pornográfico e as películas eram exibidas em algumas salas existentes. Só nos anos de 1970, por exemplo, havia cinco cines pornôs em Salvador: Jandaia, Pax, Liceu, Tupy e Astor. Atualmente, além dos “points de pegação”, apenas o Glauber Rocha ainda existe.

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Para Pena, o Glauber Rocha distingue-se dos outros dois cinemas de rua por dois motivos. “Ele se configura como um cinema híbrido, pois mesmo estando na rua possui características dos cinemas de shopping center e não é destinado ao gênero pornográfico e o consequente uso para práticas sexuais como as existentes no Tupy e no Astor”, explica. O Cine Tupy, localizado na Av. J.J. Seabra, e o Cine Astor, próximo à Câmara Municipal de Vereadores, preservam de maneira precária as características dos cinemas de rua: grande plateia, uma única sala de projeção, além do mobiliário antigo.

Cine Tupy ainda funciona e é marcado por práticas sexuais

Prática sexual – Apesar de serem cinemas pornôs e exibirem filmes do gênero, o que marca os dois cinemas é o fato de serem lugares de encontros e práticas sexuais. “Enquanto os filmes são exibidos, muitos dos espectadores andam pelos corredores da sala escura, cuja única iluminação é a da própria tela. Alguns ficam em pé encostados em algum lugar, outros preferem sentar-se e assistir ao filme. Isto acontece tanto no Tupy quanto no Astor”, afirma o urbanista.

O público varia desde jovens a idosos, mas a maioria dos frequentadores é do sexo masculino. Há também transexuais, garotas de programa e michês que oferecem serviços sexuais nas salas. “Esses profissionais andam pelo espaço abordando alguns dos presentes e exibindo seus corpos, pois geralmente estão minimamente vestidos e bastante insinuantes. Muitos, entretanto, estão em busca de parceiros sem maiores custos, por assim dizer”, pontua.

De acordo com o antropólogo e jornalista Tedson Souza, os cinemas frequentados pelo público formado por lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e transgêneros (LGBT) na capital baiana são ambientes improvisados. Para ele, em outras cidades, como Recife, há um cuidado maior por parte dos empresários do ramo. “Os cinemas poderiam ser mais limpos. São sujos, além de ter um cheiro ruim. A indústria aqui não tem noção que isso é um negócio e que poderia se gerar muito mais dinheiro. Mas, como os outros pontos de encontro, tem aquele do fetiche, do ‘cinemão’, da ‘pegação’”, explica.

Souza, que já frequentou boa parte dos points de pegação LGBT, ressalta que o Cine Tupy passou de cinema da elite soteropolitana para ponto de resistência. “Na época que eu frequentei, já era um cine de pegação. O cinema é imenso e o foyer é um escândalo de lindo, tipo teatro. Na minha época, quem era a ‘síndica’ do cinema era uma travesti, Ana Paula, que já morreu. Ela regulava tudo pra não ter uma confusão entre os michês, travestis e garotos de programa”, conta. Na primeira vez que o antropólogo foi ao cinema se impressionou com a variedade do público e, segundo ele, havia homens de todos os tipos. Segundo Souza, a maioria das pessoas que frequenta estes lugares quer sexo rápido, de poucas palavras.

Cabines – Outro ponto de práticas sexuais sobretudo do público gay é o Queens Sex Gay Club, que fica na Rua Theodoro Sampaio, nos Barris. Tedson Souza explica que o local já foi muito frequentado na década passada. “Tinha festas da cueca, shows de sexo explícito e as famosas cabines. Funcionava como uma boate a noite e como locadora de cabines, lugar perfeito para sexo rápido e é barato. Também é possível fazer sexo entre o intervalo do almoço do trabalho”, explica.

Além desse, o Vídeo Bahia Cabines é outro estabelecimento que conta com glory hole, salas escuras, internet e quartos privados. O local fica na Rua do Salete, 2, também nos Barris.

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