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Carrapato não tem pai

- 4 de maio de 2016

Seu Clóvis ri de si, de mim e de qualquer um que esteja por perto. A demência apenas o estimulou a viver a vida de uma maneira diferente e mais livre.

Laís Matos | Foto destaque: Dudu Assunção

Seu Clóvis nunca foi um homem de ‘natureza fácil’. Lembro de pequena ouvi-lo reclamando com todos por qualquer motivo e não entendia aquilo. Perguntava à minha avó e ela dizia: “ele é teimoso, liga não”. Hoje, com 82 anos, Clóvis Manuel do Rosário é um personagem quase irreconhecível aos olhos de quem cruzou o seu caminho apenas na juventude.

Com a rotina metódica e inflexível, ele se levanta às 7 horas, almoçava ao meio dia, tomava banho às 17h30 e, se o café não estivesse pronto às 17h50, era melhor se preparar para uma de suas explosões. Atualmente, ele intercala episódios de Chaves com revistinhas da Turma da Mônica e idas à mercearia do outro lado da rua para comprar doce, biscoito, bala e refrigerante. Isso porque Seu Clóvis bebe no máximo dois copos de água por dia, o resto é refrigerante de todos os sabores. Ele não vai ao médico, não escova os dentes e quando sai de casa, não vai longe.

Por mais que os filhos, netos e cunhadas insistam, Seu Clóvis faz o que quer. Sua maior diversão é dar notinhas de dois reais aos netos quando o visitam e contar as velhas piadas de sempre.

– Duas cigarras se encontram e uma pergunta a outra, “comadre, cadê o seu marido?”

– Vô, você já contou isso um milhão de vezes, diz Cecília, a neta caçula.

– Fumaram ele, conta, rindo sozinho.

Entre as piadas e canções que interrompem conversas familiares, muitos perdem a paciência com o seu jeito inconveniente. Mandam ele se comportar, ser mais limpo, parar de almoçar sorvete, não falar de boca cheia e, pelo amor de Deus, não soltar gases na frente das pessoas.

Mas ele não não se importa, não. Seu comportamento faz os filhos acreditarem que ele voltou à infância, já que suas maiores ambições bambeiam entre a lasanha da hora do almoço e o dia do seu aniversário que se aproxima. O aniversário é uma data sempre mágica. Ele conta ansioso cada dia que falta para comemorar e comer bolo com sorvete.

Não apenas o seu aniversário deve ser especial. Seu Clóvis faz questão de, todos os dias, recordar as datas de nascimento de todos os parentes próximos e se programar para dar o seu clássico “R$ 100,00 de presente”. Ele nunca esquece.

Uma doença que aprisiona

Mais do que isso, Clóvis apresenta uma quebra de padrões de comportamentos sociais aos quais somos impostos desde criança. O indivíduo cresce condicionado a agir conforme a etiqueta. Deve trabalhar, cuidar da saúde, da família e ser uma pessoa decente. Depois de toda uma vida sendo sufocado por essas normas, surge em alguns a oportunidade de se libertar delas. No entanto, a demência é um estado de incapacidade do indivíduo que limita as atividades do idoso.

A geriatra Christiane Machado explica que o quadro de demência em nada se assemelha com a infância, diferente da ideia que o senso comum ainda insiste em pregar. “Apenas o grau de vulnerabilidade que torna o idoso tão dependente como uma criança. É impossível estabelecer qualquer tipo de comparação”, explica.

Sobre o caso de Clóvis Manuel, ela explica que é um traço comportamental da doença dele. “Ele se manifesta dessa forma, um caso particular que não é comum. Geralmente, os idosos voltam muito ao passado e nem sempre têm coerência no que dizem”, comenta a geriatra.

Alterações não cognitivas que variam em cada caso podem aparecer: “alguns pacientes imaginam que são perseguidos ou tem alucinações”, explica.

Para muitos, ele é apenas um velho teimoso e até grosseiro. A demência, já diagnosticada, tomou conta de Seu Clóvis e de boa parte de sua memória. Ele confunde números, datas e nomes. Às vezes, é preciso lembrar a ele que o café já foi tomado para que não coma duas vezes. Tudo isso acontece graças à sua mente confusa, mas também por que ele, ao longo de toda a vida, gostou de fazer as coisas à sua maneira. Com a velhice, essa característica progrediu e não costuma agradar muita gente.

A demência é um conjunto de manifestações clínicas. “Não é uma doença. É um quadro em que o paciente manifesta declínio e perda da capacidade cognitiva”, afirma a especialista. As causas são várias, mas a principal delas é o Alzheimer. “Pode ser Parkinson, doença vascular, mas, 60% das vezes, é causada pela doença de  Alzheimer”, avalia.

A forma como o quadro transcorre depende muito de variáveis sociais, econômicas e biológicas. “Algumas medicações podem agravar o caso, por isso devem ser bem escolhidas, pois interferem diretamente na cognição. Além de fatores ambientais, a conjuntura familiar e a forma como esse grupo lida com o paciente afetam o comportamento”, destaca.

Hoje, de volta ao ponto de partida, Seu Clóvis não respeita mais as regras que o moldaram durante 82 anos. Sua condição faz lembrar que, apesar de necessário e até saudável, uma vida regrada pode tirar a pureza das pessoas. Mesmo tendo algumas atitudes pouco admiráveis com quem está ao seu lado, não há quem não se divirta com sua frase preferida:

“Ai, ai, ai, carrapato não tem pai”, diz, o meu avô.

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