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Beco dos Artistas: de point a decadente

- 10 de dezembro de 2014

Alexandre Galvão e Naiana Ribeiro

Ao passar pela Avenida Cerqueira Lima, no Garcia, em um final de tarde ensolarado de 2014, o antropólogo e jornalista Tedson Souza mal poderia imaginar o que iria encontrar. Um amontoado de lixo na entrada da avenida que já fora cenário de momentos marcantes de sua vida. Conhecida como Beco dos Artistas, por reunir intelectuais e artistas a partir do final dos anos de 1970, a avenida passa por um período de decadência, contrapondo os tempos de glória dos anos de 1980 e 1990.

“Tenho uma tristeza quando vou lá porque foi um lugar que marcou minha vida. Todos os meus amigos gays, da minha idade, se iniciaram ali: era o primeiro lugar onde todos iam. Não pagava se não consumisse, era um espaço democrático”, relembra Tedson. A primeira vez que ele foi ao Beco foi para comer uma feijoada em um Carnaval dos anos de 1990. “As casinhas eram muito bonitinhas, pintadinhas. Depois disso, quando tinha uns 19 anos e já estava na faculdade, dava aula de português por ali e quando saía ia para o Beco. Era um lugar para sentar, conversar, mas também era um lugar onde a gente namorava, ficava e conhecia novas pessoas”, conta. Na volta para casa, como ele morava no Subúrbio, em Paripe, voltava no último ônibus junto com outros amigos, do mesmo nicho social, que também frequentam a avenida.

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Próximo a grandes teatros do Centro da capital baiana, antes mesmo de Tedson frequentá-lo, o point movimentava a classe artística dos teatros do Centro. “No final dos anos 70 e 80, quando acabavam as peças e shows, eles iam pra lá”, diz. Além disso, o antropólogo ressalta que o espaço misturava diversos públicos: desde artistas a gays, lésbicas, drag queens, pessoas de todas as classes e idades. O ponto de encontro reunia adolescentes, que iam para lá após as aulas, além de uma movimentação pós-teatro e um público que ia fazer o “esquenta” pré-balada.

“Era um dos poucos lugares que os adolescentes podiam ir. Quem tinha grana, ia para o bar maior. Quem não tinha ia para os menores ou até ficava ‘bebendo no isopor’. Tinha muita diversidade, a coisa do fetiche do cara mais velho com o mais novo, a mistura de ritmos tocados, desde pagode a funk”, conta Tedson. Quando ele frequentava a avenida o principal bar era o Camarim, que ficava na primeira porta e depois foi crescendo, tomando o lugar quase todo.

Além disso, a programação era muito variada. A partir das 17h já começava a ficar movimentado. “Um dia da semana, um dos meus preferidos, um ‘cupido’ – interpretado por um ator – mexia com as pessoas. A gente podia mandar recados, era divertido. Além disso os shows transformistas bombavam”, lembra. As bebidas e petiscos dos bares atraiam o público e compunham a programação. “Tinham umas bebidas personalizadas, com nomes de artistas. Lembro que eu bebia a ‘Sandy’, que não tinha álcool”, conta.

Mesmo com as boas lembranças do tempo em que frequentava a Avenida Cerqueira Lima, Tedson critica o descaso do poder público e de uma indústria do entretenimento LGBT que tende para orla do Rio Vermelho e Barra. “Com a chegada da classe média, a cena gay vai puxando o público LGBT. O circuito do Centro permanece com adolescentes do Centro, negros e mais pobres. O serviço, sobretudo, vai ficando muito ruim, as instalações não são boas”, afirma. Para ele, há uma espécie de higienização às inversas, já que o Beco está localizando próximo a um dos bairros mais nobres da cidade. “Para fazer com que aquilo morra, espalham um pânico do perigo, da violência, da droga”, acrescenta.

Foto: Naiana Ribeiro

De point à decadência – De acordo com informações do Grupo Gay da Bahia (GGB), o Beco dos Artistas teve seu primeiro bar, o La Bohême, no final dos anos de 1970. Comandado pelo francês Jacques Frelicot, o estabelecimento, pequeno, aconchegante e com decoração originalmente rústica, atraía um público que queria curtir a noite e que não tinha dinheiro pra gastar. Outros bares surgiram. É o caso do Cactus que atraiu o público de gay, lésbicas, dragqueen, transsexuais, trangêneros e simpatizantes, o Bar de Raimundo e o Bastidor.

Com 44 anos de existência, o local já passou por muitas fases: já funcionou só para almoço, atraiu empresários locais pelo seu preço e nos anos de 1990 recuperou o público noturno e a classe artística. Até que volta a uma fase de declínio. Em 2010, a avenida passou por uma revitalização e hoje funciona às quartas, sextas e sábados. “O bar Melancia Blue, por exemplo, ainda está lá. Mas é um lugar perigoso. A própria comunidade LGBT está sentindo falta desses ambientes”, afirma o editor-chefe do site Dois Terços, Genilson Coutinho Pereira.

Segundo ele, no dia 22 de novembro de 2014 foi dado o pontapé inicial para reconstrução e resgate da história do Beco dos Artistas. “É um dos legados culturais da cena LGBT de Salvador, mas que nos últimos anos deixou de ser o ponto de encontro da comunidade gay diante da falta de segurança e infraestrutura. A militância gay de Salvador promoveu a primeira reunião para debater e planejar as ações para revitalização do espaço”, finaliza.

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