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Baladas gay atraem público LGBT e simpatizantes

- 10 de dezembro de 2014

Alexandre Galvão e Naiana Ribeiro 

Aos 18 anos, o soteropolitano Paulo* ainda não tinha certeza sobre a sua sexualidade. As divas do pop o atraíam para boates como a San Sebastian, no Rio Vermelho, e Amsterdam Pop Club, no Campo Grande. Essas idas foram essenciais para seu autoconhecimento e autoafirmação. “Conheci mais pessoas que eram iguais a mim. Era muito difícil ver casais homossexuais na rua, de mão dada ou se beijando. Sabia que existiam, mas era algo distante”, conta. O rapaz afirma que dentro das festas via tudo isso e que lá percebeu que tudo aquilo é normal. “É um universo que não existe fora dali: na festa você pode ser o que você quiser e ficar livre dos julgamentos e preconceito da sociedade”, explica o estudante de Administração.

A história é de Paulo*, mas poderia ser de qualquer outro ou outra jovem homossexual. Muitos deles passam a frequentar as boates gays de Salvador não só como diversão, mas como forma de extravasar e conhecer melhor a realidade do mundo formado por lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros (LGBT).

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O estudante diz ainda que nestas baladas as pessoas costumam ser mais livres. “Dançam muito, vão até o chão e bebem mesmo, sem medo de ser feliz”, conta. Para ele, o mundo heterossexual é muito diferente. Além de ter sido cenário para experiências inéditas como ‘ficar’ com mais de seis pessoas em uma noite ou chegar às preliminares no banheiro, as festas também marcam momentos especiais de sua vida. “Levei algumas amigas para uma festa e foi lá que me assumi. Elas já sabiam, mas precisavam ver. Para algumas eu nem precisei dizer nada. Elas apenas me viram beijando um menino. Foi um alívio”, relata.

Foi o mesmo alívio que sua amiga Beatriz* sentiu. “Sabia que ele era gay, mas nunca dizia nada. Tentava ajudar, de alguma forma, mas não sabia como. Esse processo de frequentar as boates foi muito importante não só pra ele, mas para mim”, diz. Ela afirma que sempre foi a favor de qualquer tipo de amor. Também por isto, nunca teve uma sexualidade totalmente definida, apesar de sentir maior atração por homens. “Ia com a roupa que eu queria e arrasava na make. Me sentia uma diva. Bebia muito, dançava e também experimentei coisas loucas. Experimentei ficar com mulheres, dar beijos triplos etc. Coloquei em prática o que eu acreditava”, lembra.

Mercado – Por traz de histórias, diversão e até mesmo amores, o mercado de boates envolve não só o público LGBT, mas também simpatizantes que colaboram com a circulação de milhões de reais. Atualmente, em Salvador, funcionam quatro boates voltadas para o público: a Amsterdam Pop Club e a San Sebastian possuem uma clientela parecida; a Boate Tropical tem, além dos DJs, shows de transformistas e concursos de Salvador; a The Hall hoje conta cerca de 30% dos eventos para LGBT’s.

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De acordo com o editor-chefe do site Dois Terços, especialista em produzir conteúdo para o público gay, Genilson Coutinho Pereira, uma boate como a San Sebastian ou The Hall recebe em média 500 clientes em dois ou três dias da semana. “Algumas chegam a atrair de 2 mil a 3 mil pessoas semanalmente, dependendo da programação”, estima.

Ainda nos bastidores das festas, há diversas pessoas envolvidas: desde funcionários da própria casa, até produtores e DJs. É o caso do estudante de Produção em Comunicação e Cultura Elciberg Muniz, de 20 anos, que há dois anos frequenta casas noturnas e se tornou DJ profissional e produtor da The Hall. “Tive vontade de ser um dos artistas da noite. Não queria só curtir, queria produzir e ser uma das pessoas por traz daquilo tudo”, revela. Em função disto, fez um curso profissionalizante e hoje é financeiramente independente graças às festas que produz e toca.

Conhecido nas festas como Berg Benoni, o estudante começou a tocar músicas pop como forma de treinamento e depois passou a tocar em festas eletrônicas. “A melhor coisa da vida é trabalhar com este público. As pessoas sabem reconhecer o seu trabalho e elogiar”, comenta. Segundo ele, junto com os elogios vêm também críticas. “Você deve ser preciso no que faz. As pessoas ficam loucas em uma noite, dançam muito. A melhor é coisa ver as pessoas entregues, de fato, a algo que foi você que fez”, afirma. De acordo com Muniz, um DJ mais conhecido chega a ganhar entre R$2 mil e R$2,5 mil para tocar cerca de duas horas.

O estudante Elciberg Muniz se profissionalizou e é DJ há dois anos

Na parte de produção das baladas, o DJ avalia que os empresários de Salvador ainda não entendem o público LGBT. “Há pouco tempo existia a OFF Club, uma balada referência mesmo depois de fechada. Nenhuma boate conseguiu fazer o que ela fez: trazer algo inovador para a cidade”, afirma. Em seu entendimento, as boates hoje só repetem e refletem o que foi feito na OFF. Para ele, os produtores da capital baiana falham justamente por não trazer uma inovação efetiva.

Crescimento dos negócios – Apesar disso, o empresário e administrador da The Hall, Maurício Azevedo, tem notado um crescimento da demanda no segmento LGBT. “Nos últimos três anos, houve um crescimento incrível. Acredito que nossos negócios na organização de eventos LGBT cresceram em 50%”, diz.

O empresário Marcos Mello, da Boate Tropical, também percebeu que a demanda por estabelecimentos para o público LGBT está em crescimento. Por isto, sedia concursos e eventos personalizados com drag queens e transformistas. No estabelecimento, quando há alguma programação os ingressos variam até R$15.

Empresário de sucesso no segmento, André Magal, também vivencia o crescimento dos negócios. Junto com o sócio José Augusto ele abriu a boate gay San Sebastian em 2009. Três anos depois eles fundaram a Amsterdam Pop. Já em setembro de 2013, os sócios inauguraram uma casa de comida japonesa voltada para o público LGBT, o Dom Sushi Lounge, e em 2014 inauguraram uma filial da San Sebastian em Recife.

Uma segmentação dentro do próprio grupo LGBT foi essencial para expandir o negócio. “A San Sebastian é para um público mais requintado, que gosta de música remixada e quer um atendimento mais exclusivo. A Amsterdam é um club pop, voltado para o gay mais novo, com música discotecada, sem remix”, explica. Segundo ele, é preciso trabalhar a identidade, além de identificar o público que pretende atrair e conhecer os gostos desse público.

* Os nomes foram substituídos ou modificados para preservar a identidade das fontes.

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