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“As informações relevantes podem ser difundidas por qualquer pessoa”

- 8 de junho de 2011

O professor Elias Machado destaca o alargamento do campo jornalístico e as implicações nas formas de produção

Por Jairo Gonçalves

Elias Machado – Foto: divulgação

Com uma vasta experiência no campo jornalístico, tendo atuado em diversos veículos no Brasil e Espanha, Elias Machado iniciou sua carreira profissional em uma pequena rádio, na sua cidade natal, Cacequi (RS). Era 1982 e, desde então, o jornalismo está presente em sua vida. Jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Maria (RS), em 1989, com mestrado em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1998) e doutorado em Jornalismo pela Universidade Autônoma de Barcelona, Espanha, (2000), Elias, atualmente, é professor na Universidade Federal de Santa Catarina e um pesquisador atento às mudanças no jornalismo.
Em um de seus artigos referenciais, “O ciberespaço como fonte para os jornalistas” (título homônimo ao livro lançado em 2003), ele apresenta entre outras coisas, a especificidade da apuração jornalística no ciberespaço. É sobre essa mudança na produção jornalística que o Impressão Digital 126 conversou com ele.

Impressão Digital 126 – Quando o jornalista passa a perceber que a produção jornalística precisa sair da barreira física da redação de jornal?

Elias Machado – Quando se dá conta de que nas condições em que vivemos, em particular nos grandes centros urbanos, não se pode em pouco tempo ter acesso às informações necessárias para a elaboração das matérias pautadas a cada dia. Muitas vezes, não existe a menor necessidade de sequer ir para a redação, pode-se viver em um local, apurar informações ocorridas em outro e publicar em meio situado em noutro lugar geográfico.

ID 126 Como os profissionais reagem a isso? Podemos dizer que houve uma forte resistência a esse processo?

EM – Depende muito do tipo de profissional, da organização em que trabalha, da formação prévia existente e da cultura que predomina numa determinada sociedade. Não se deve generalizar porque os comportamentos são muito variáveis. Cabe apenas salientar que a tendência, principalmente entre os mais jovens, nascidos do final dos anos 80 para cá, é incorporar cada vez mais as práticas descentralizadas e midiatizadas de apuração no ciberespaço.

ID 126 Atualmente o jornalismo utiliza bem o potencial que está disponível no ciberespaço para apuração jornalística?

EM – Na média não. Por diversos motivos. Em primeiro lugar, porque ainda falta uma cultura de uso do ciberespaço como fonte legítima. A maioria dos profissionais no mercado teve uma formação voltada para os meios convencionais, que professa o mito de que “vida de repórter é nas ruas”. Em segundo lugar, a atualização dos profissionais depende de um investimento contínuo em tecnologia e em formação que somente uma minoria das empresas está disposta a viabilizar. Em terceiro porque estamos em plena consolidação do ciberespaço como fonte para pesquisa de informações. Nestas circunstâncias, muitas são as dúvidas e as incertezas sobre como melhor aproveitar todo este potencial.

ID 126Ate que ponto a relação do jornalismo com o ciberespaço é proveitosa? Existe algum aspecto negativo nessa interação?

EM – Na realidade, não deveríamos estabelecer uma contraposição entre jornalismo e ciberespaço. A começar pelo fato de que não podemos mais falar de Jornalismo sem considerar o ciberespaço. Até mesmo nos meios convencionais a prática jornalística cada vez mais passa pela mediação das tecnologias digitais conformadoras do ciberespaço. Os aspectos negativos existentes na prática jornalística atualmente (flexibilização dos critérios de apuração, desconsideração de normas deontológicas clássicas da profissão, predomínio da opinião) não são decorrentes por si só do uso do ciberespaço como ambiente para apuração e difusão de informações, mas dos tipos de apropriação social das tecnologias.

ID 126 – Podemos dizer que o ciberespaço possibilitou e potencializou o alargamento do campo jornalístico. Isso pode contribuir de forma negativa para uma banalização sobre o que é jornalismo?

EM – Podemos dizer sim, mas não creio que este seja em si mesmo prejudicial à prática do Jornalismo de qualidade.  Penso que a falta de critérios dos profissionais, a má formação dos futuros jornalistas e os desvios de conduta de muitas empresas jornalísticas são muito mais determinantes para a banalização do jornalismo que a emergência do ciberespaço.

ID 126 – Hoje é muito comum o jornalismo ser pautado pelas redes sociais. Então, o conteúdo que circula pela internet só pode ser caracterizado como informação relevante quando é apurado, editado e divulgado por profissionais do jornalismo?

EM – De jeito nenhum! As informações relevantes podem ser difundidas por qualquer pessoa ou organização independente de qualquer vinculação com o Jornalismo. Não se pode confundir informação relevante como sinônimo de Jornalismo. Muitas vezes e, cada dia mais, o Jornalismo está associado a informações irrelevantes do ponto de vista econômico, político e cultural, mas que podem ser interessantes em termos de entretenimento. O que me parece mais crucial é a distinção entre informação jornalística e os outros tipos de informações em circulação na sociedade. A tendência é que, cada vez mais, a informação de natureza jornalística perca espaço para outros tipos de informação.

ID 126 – Essa multiplicação de difusores da informação afeta o contato entre fonte e jornalista. Será que estamos caminhando para um distanciamento da fonte?

EM – Afeta em diversos modos, mas sem necessariamente significar um distanciamento da fonte. De um lado, aumenta a necessidade da mediação social, com a incorporação de mediadores especializados, através da criação de assessoria de comunicação. De outro, a própria fonte assume a comunicação direta, através do uso das redes sociais. Em vez do fim das mediações o processo é mais complexo, retro-alimentando um processo contínuo e múltiplo de inter-relações entre os diversos atores sociais envolvidos nestes processos.

ID 126 – Qual a principal transformação a ser considerada na apuração jornalística hoje, em comparação há alguns anos atrás? Podemos considerar essas mudanças como positivas, ou existem questões que não representam grandes contribuições ao campo?

EM – A principal transformação é que se pode partir para as tarefas de apuração com a possibilidade de uma pré-apuração muito mais contextualizada. Antes o acesso aos arquivos e às chamadas fontes secundárias era muito mais difícil, muitas vezes inviabilizando a contextualização das informações, muito dependentes das declarações dos entrevistados.

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