Ansiedade: transtorno em crianças não é ‘falta de tapa’

Carlos Bahia Filho e Maria Luiza Vieira - 2 de junho de 2021

Condição é uma das mais frequentes nesta faixa etária, e tem a família como base importante para reverter quadro

As mãos suam, os batimentos cardíacos se aceleram e até respirar se torna um grande sacrifício. É como se o corpo estivesse totalmente fora do controle e aqueles minutos de mãos suadas e trêmulas parecem eternos. Você já se sentiu assim?

Essa é uma descrição comum de crise de ansiedade, o momento em que os sintomas físicos se manifestam de forma intensa. Crises de ansiedade podem indicar um possível transtorno de ansiedade, uma condição mais comum do que se possa imaginar e que, mesmo assim, ainda é pouco falada. Não dá para negar, a ansiedade ainda é um tabu e talvez a maior prova disso é que nem as autoridades públicas possuem dados sobre o assunto.

Este tipo de transtorno tem acometido uma quantidade maior de crianças e é capaz de gerar efeitos e sequelas que podem acompanhá-las ao longo de toda a vida. Ainda pequenas, elas podem encontrar dificuldades no desenvolvimento cognitivo e em relações interpessoais, seja no núcleo escolar ou até familiar.

Para se ter uma noção do impacto do transtorno, a ansiedade só não é mais comum em crianças do que Transtornos de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e de conduta, segundo reportagem da Revista Veja, publicada no início de 2020. Para reverter essa situação, é importante entender como se dá o processo de diagnóstico da condição e quando os adultos devem ligar a anteninha da preocupação com determinadas mudanças comportamentais dos pequenos.

  • Ansiedade não é uma doença

Ao falarmos na palavra “ansiedade”, é comum pensar no transtorno em si, mas cientificamente o conceito não começa por esse caminho. A neuropsicóloga infantil Andrea Bahia define ansiedade como a “emoção primária do medo”.

“É o mecanismo de funcionamento que coloca o indivíduo em movimento. Está relacionado a áreas que também envolvem hormônios, permitem a gente entrar em ação, está relacionada com mecanismo de sobrevivência, permitem que pessoas estejam em estado de alerta ao enfrentamento, se antecipar e agir de forma preventiva diante de ameaças”, explica.

Andrea também enfatiza que a condição de transtorno se dá a partir do aumento de intensidade e frequência da aparição dessas emoções. A especialista aponta dois fatores de origem para os casos infantis da condição de ansiedade. Um deles se refere à herdabilidade da criança, ou seja, a uma predisposição genética que ela pode ter, considerando que outras pessoas da família tenham histórico de ansiedade ou outras alterações psicológicas. Já o segundo fator é o do meio que a criança vive. “São fatores ambientais, ligados a sobrecarga de rotina, acúmulo de atividades também alinhado ao uso excessivo de tecnologia”, enumera.

A ansiedade, como costumamos falar, pode ser perceptível a partir de situações fora do comportamento padrão de uma criança, segundo o que explica a psicóloga Gabriela Coelho, que tem formação em terapia cognitivo-comportamental. “Não é uma ansiedade porque você está na saída da escola com os amiguinhos, não é uma ansiedade porque é primeiro dia de aula, não é aquela ansiedade porque fez alguma coisa de errado e ativou o medo… Quando ela sai da zona do cotidiano e começa a ser disfuncional para a criança, quando paralisa a vida, começamos a ligar um sinal de alerta”.

Sintomas comuns que podem indicar possíveis quadros de ansiedade
  • Maria Eduarda Cavalcante, 22 anos

Alguns casos de ansiedade têm início após uma situação traumática. No caso da estudante de direito Maria Eduarda Cavalcante, de 22 anos, este episódio foi um assalto dentro da própria casa. Na época, ela tinha apenas seis anos de idade e chegou a pensar que era de alguma forma responsável pelo ocorrido.

“Eu tinha uma preocupação extrema com meus pais e com meu irmão. Eu sentia que não podia permitir que mais nada acontecesse com a minha família”, explica.

Essa preocupação extrema é um dos indicativos de ansiedade em crianças. Medos são normais e necessários, eles dão limites e inclusive servem como proteção em situações de risco. O problema é quando esse sentimento passa a ser frequente e limitante, que foi exatamente o que aconteceu com Eduarda.

“Eu chorava muito. Antes de dormir eu tinha que fechar todas as janelas, trancar todas as portas e conferir se havia alguma forma de entrarem na minha casa. Às vezes eu acordava à noite para verificar se estavam todos dormindo bem, se estavam todos respirando”, recorda a estudante de direito.

Além do medo que sentia dentro de casa, Eduarda também se sentia ansiosa em relação à escola e ao futuro. Ela conta que queria ter as melhores notas, ser a melhor aluna e era sufocada por essa autocobrança que depositou em si. Esses sentimentos de medo, preocupação e cobrança acompanhou Eduarda por algum tempo, até que aos nove anos seus pais perceberam que o comportamento não era “só uma fase” e procuraram ajuda psicológica.

Na terapia, ela foi diagnosticada com transtorno de ansiedade e déficit de atenção e seguiu com o acompanhamento de uma psicóloga. “Nessa época eu era muito nova e não aceitava tão bem a terapia quanto eu aceito hoje, mas foi um grande passo para que eu começasse entender que era importante cuidar da minha saúde mental, porque aquilo que eu passava me adoecia”.

  • Ana Lara Barros, 20 anos

Por ter muitos sintomas possíveis e pouca discussão, a ansiedade é difícil de ser identificada até pelo meio da saúde. A estudante de produção cultural Ana Lara Barros, de 20 anos, passou por alguns profissionais até entender que o que ela sentia quando criança não tinha nada a ver com o corpo, e sim com a mente.

“Eu tinha muita insônia, muita falta de ar quando deitava para dormir e dor muscular”, explica. Esses sintomas podem ser facilmente atrelados a outras questões, como sedentarismo e má alimentação – que foi justamente o diagnóstico dos primeiros médicos com quem conversou.

Porém, a curiosidade fez com que ela fosse a fundo e pesquisasse seus sintomas na internet, até que percebeu que ao invés da ajuda médica, deveria buscar ajuda psicológica. Ela procurou a psicóloga da escola e fez algumas sessões, até que recebeu o diagnóstico. Porém, as soluções da própria profissional na época envolviam socializar mais e fazer exercícios físicos.

“As pessoas responsáveis por mim não levavam tão a sério, então eu tinha que lidar com isso sozinha. Eu não entendia muito bem o que estava acontecendo comigo e comecei a acreditar que tinha que passar por cima das coisas e só ir superando”, desabafa.

Ana ainda conta que os sintomas da ansiedade na infância deixaram marcas perceptíveis até hoje. Ela chegou a tomar remédios para conseguir dormir e, ainda que em níveis menores, ainda sofre de insônia. “Na época, eu só conseguia dormir por umas duas horas e geralmente não era na minha casa e nem no horário certo. Apesar de não sofrer disso hoje, essas situações deixaram marcas, sequelas. Por exemplo, eu tive uma fase com muitos pesadelos e até tive paralisia do sono. Mesmo que hoje isso não aconteça mais, ainda tenho um certo medo de dormir”, finaliza.

  • Laura*, 10 anos

Helena* é mãe de Laura*, de 10 anos. Ela viu o comportamento da filha mudar bastante após um trauma recente: o falecimento da avó, vítima da covid-19.

As duas eram muito próximas e moravam no mesmo prédio, de modo que era comum as encontrarem brincando juntas no playground. Com a pandemia da covid-19 o contato ficou mais reduzido, sem abraços, mas mesmo assim ainda dava para descer no elevador, dar um oi e matar a saudade com todos os protocolos de saúde.

Os comportamentos diferentes começaram a aparecer quando a avó precisou ser hospitalizada e entubada, e uma situação incomum fez com que a família entrasse em estado de alerta. “Ela saiu do banho e disse que tinha engolido um monte de sabão líquido. A gente achou que ela tinha realmente engolido e ficamos todos desesperados, até porque ela tem 10 anos”, explica a mãe.

Na época do ocorrido, entre março e abril de 2021, a Bahia vivia um dos piores momentos da pandemia e os hospitais estavam lotados. Ao conversar melhor com Laura para entender a situação antes de tomar uma providência, Helena percebeu que na verdade a filha tinha a impressão de engolir sabão quando o shampoo era enxaguado e passava pelo rosto.

“Esse episódio levou à mania de guardar cuspe na boca e esperar para engolir. No início, ela dizia que o cuspe estava com sabão, depois passou a dizer que estava com covid ou com poeira”, relata.

Quando a avó faleceu, Laura chegou a perguntar à mãe se ela tinha alguma parcela de culpa na morte. A menina também passou a não querer descer para brincar no playground, como costumava fazer com a avó.

Preocupada com a situação, Helena entrou na fila de espera de uma psicóloga infantil, mas ainda não obteve retorno e, por isso, não possui um diagnóstico. Ela acredita que agora Laura tem lidado melhor com a situação e vê mudanças positivas nos comportamentos: “Acho que talvez seja algo desses tempos de pandemia. Por ser pequena, acho que talvez ela consiga melhorar sozinha”.

  • Consequências da ansiedade

Casos como os que foram relatados mostram o impacto que o transtorno pode ter em uma progressão de tempo maior, principalmente se não for bem tratado ou levado a sério. “Eles podem desfavorecer as relações com as crianças da mesma idade, porque a falta de paciência da criança ansiosa pode ser um fator gerador de conflitos com as outras crianças”, explica Aline Silvany, orientadora educacional de um colégio de Salvador.

Desse modo, o prejuízo à qualidade de vida da criança deixa de ser um mero sintoma e se torna algo contínuo, que se configura também como uma sequela, como as que foram citadas principalmente por Maria Eduarda e Ana Lara. “A criança pode parar de efetuar uma atividade rotineira, pode querer faltar a escola, deixar de brincar”, pontua Gabriela. Além disso, a neuropsicóloga infantil Andrea também faz um importante alerta. “O maior risco de um transtorno não tratado é levar a outras comorbidades, como o transtorno depressivo, riscos de outras condições, inclusive o perigo à própria vida”.

  • Caminhos para o diagnóstico

Quando se fala de crianças, há de se levar em conta o fato de que elas ainda têm certa dificuldade em se expressar e explicar o que estão sentindo, segundo Andrea. Com isso, a participação dos pais se torna vital para a identificação de que algo não está bem com a criança. Uma barreira nessa situação, no entanto, está na falta de preocupação e informação de temas relacionados à saúde mental, ainda mais na infância. “Isso acontece principalmente pelo estilo parental educativo antigo, que diz que esse tipo de coisa é ‘falta de tapa'”, aponta Andrea.

Questionada pela reportagem sobre dados relativos ao transtorno em crianças, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Salvador afirmou não ter registro sobre a condição. A Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab) também disse não possuir esses dados “por não ser um agravo de notificação (quando o serviço de saúde tem obrigação de informar ao Ministério da Saúde)”. Até por essa ausência de números e informações, a participação familiar nos processos individuais se torna ainda mais importante.

“É preciso que os pais estejam abertos, disponíveis, percebam que existe uma questão que não está funcional para a criança”, afirma Gabriela Coelho. A pedagoga Aline Silvany ainda lembra que essa disponibilidade dos pais em ouvir influencia diretamente na facilidade em identificar qual o problema que a criança passa. “Divórcio dos pais, morte na família, grandes mudanças, bullying…tudo isso pode causar ansiedade em uma criança, mas não significa que ela tem um transtorno de ansiedade”, diz.

  • Como tratar?

Uma vez identificada, a ansiedade pode ser tratada ainda com o paciente na fase infantil. Entre as possíveis ações, estão as terapias cognitiva-comportamentais e uso de medicamentos como a pregabalina ou antidepressivos. Para isso, claro, é necessário o acompanhamento e a indicação de um profissional de saúde especializado. Gabriela Coelho também traz outras possíveis técnicas de tratamento que aproximam a família da criança.

“É comum usar a ludoterapia, que é utilizar os brinquedos e desenhos como instrumentos para conseguir dialogar com essa criança. Isso é importante, porque muitas vezes ela ainda não sabe interpretar suas emoções e sentimentos, e às vezes a verbalização não é recomendada. Isso acontece porque elas podem não saber o que significa aquele sentimento, a profundeza dele”, aconselha a psicóloga.

A atividade física também pode ter um bom papel nesse processo e, se acompanhada da família, melhor ainda. “Eles (os esportes) vão ajudar a aliviar as tensões, vão trazer um momento de leveza, estimular produção de substâncias que nos ajudam a relaxar”, diz Gabriela.

No dia a dia, o ideal é que a criança que sofre de ansiedade tenha uma rede de apoio formada pelo psicólogo, escola e família. “O importante é investir no ambiente e no bem estar dessa criança, ajudar a família a melhorar a convivência em casa e melhorar a convivência na escola também”, enfatiza a pedagoga Aline Silvany.

Essa pareceria será fundamental para que a criança consiga se desenvolver cognitivamente, criar relações e não sofrer com sintomas agravados do transtorno no futuro. 

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