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ABC: alfabetizar não é brincadeira de criança

- 28 de fevereiro de 2016

O processo da alfabetização é como um novo mundo que se apresenta, com uma infinidade de possibilidades e desafios

Eduardo Bittencourt | Foto destaque: Divulgação/Instituto Chapada de Educação e Pesquisa

Atualmente, a alfabetização brasileira acontece entre o 1º e o 3º ano do Ensino Fundamental. Há alguns anos, se a criança era alfabetizada em um ano específico para este momento da aprendizagem, hoje o período é de três anos. A mudança faz parte da Resolução Nº 7 do Conselho Nacional de Educação, publicado no Diário Oficial da União em dezembro de 2010.

De acordo com a psicopedagoga Susy Ribeiro, a mudança garante um tempo maior para que a criança saiba ler, escrever, contar e interpretar. “Se a pessoa tem dois anos a mais para fazer isso e faz bem, o resto das outras séries ficam muito mais fáceis. O que vai garantir uma boa alfabetização é esse ciclo de leitura”, opina. A psicopedagoga Verônica Nogueira compartilha da mesma crença. “A nova divisão da alfabetização é positiva porque garante que a criança tenha um intervalo de tempo maior para aprender”, afirma.

A dona de casa Juliana Monteiro, mãe do pequeno Lucas, de 8 anos, contou estar um pouco insegura quando soube da mudança, mas percebeu que o resultado foi positivo. “Eu só tomei conhecimento dessa mudança há dois anos, quando meu filho concluiu a educação infantil. Mas vejo que ele chegou ao 3º ano já sabendo ler, contar e bastante curioso em aprender coisas novas”, relata a mãe.

Avaliação 

A situação de Lucas, no entanto, não é uma maioria na Bahia. De acordo com os dados da Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA) de 2014, divulgado em setembro do ano passado pelo Ministério da Educação (MEC), 37% das crianças no 3º ano do ensino fundamental só desenvolveram a capacidade de ler palavras isoladas. A avaliação do MEC mede o conhecimento destes estudantes em diferentes níveis de três áreas: leitura, escrita e matemática.

Segundo o MEC, 37% das crianças no 3º ano do ensino fundamental só sabem ler palavras isoladas. / Ilustração: Divulgação

A maioria das crianças avaliadas, que possuem idade média de 8 anos, conseguem escrever com diferentes estruturas silábicas e dão continuidade a uma narrativa, mesmo sem incluir todos os elementos da mesma, no quesito leitura. Já na matemática, 42% das crianças no 3º ano do ensino fundamental estão no nível mais básico, segundo o Ministério. Neste nível, considerado inadequado pela pasta, espera-se que a criança saiba contar até vinte, ler as horas e minutos em relógio digital e comparem objetos pelo seu comprimento.

Essas dificuldades são sentidas pela professora Ester Batista, que ensina no 2º ano do ensino fundamental. Segundo a professora, alguns alunos chegam em sua turma com dificuldades para leitura. “Alguns não sabem falar os sons do ‘O’ e do ‘E’ direito, por exemplo. Então, vou trabalhando a leitura e a escrita. Eles geralmente escrevem o que falam. Se falam errado, vão escrever errado”, lamenta Batista.

Alfabetização lúdica  

O professor que trabalha com crianças em idade de alfabetização pode tentar estimular e ajudar os alunos com atividades lúdicas. “As atividades lúdicas contribuem para o desenvolvimento das potencialidades humanas das crianças, proporcionando condições adequadas ao seu desenvolvimento físico, motor, emocional, cognitivo e social”, defende a psicopedagoga Verônica Nogueira. Assim, o professor pode utilizar a música, o teatro e os jogos para capturar o interesse dos pequenos.

A professora Josicélia Porto sempre utilizou músicas e jogos para estimular seus alunos. “O lúdico estimula capacidades importantes como atenção, memória e imaginação”, defende. A opinião é compartilhada por outras mestras. “Eu utilizo vídeos, música e jogos e brincadeiras, como a cruzadinha, que eles [os alunos] gostam e se empolgam”, exemplifica Ester Batista.

A psicopedagoga Susy Ribeiro também apoia o uso da ludicidade nas atividades e aulas de alfabetização. Entretanto, destaca que é necessário que a criança possa confiar em si mesma para aprender a ler, escrever e contar. “O professor já tem um planejamento. E ele o faz em cima da leitura, da contação de histórias, representações, usando a criatividade da criança. A gente precisa estimular essa criança para que ela possa acreditar em si mesma. A partir do momento em que ela confia que pode juntar as letras fica mais fácil o processo de aprendizagem”, alega.

Dificuldades

Contudo, há casos em que a criança não consegue acompanhar a turma no processo de aprendizagem. Este é o momento em quem mais do que nunca, a escola e os pais precisam agir juntos, pensando em uma forma de fazer a criança acompanhar o ritmo dos ensinamentos. Para Susy Ribeiro, o ideal seria que as salas de aula tivessem um auxiliar de classe que ficasse próximo às crianças, fazendo atividades extras para acompanhar o ritmo da turma.

“Em algumas escolas particulares o auxiliar existe. Mas o professor pode também colocar a criança que se destaca com a outra que se atrasou”, sugere a psicopedagoga. Segundo Ribeiro, essa prática é chamada de Conhecimento Aproximado e é uma alternativa para as escolas que não dispõem de auxiliares de classe.

Quando, apesar da dificuldade, a criança continua tendo a possibilidade de passar de ano, o professor deve comunicar aos pais à direção da escola as deficiências do aluno. Isso é o que defende a professora Iaraci Costa. “O professor deve, primeiramente, informar aos pais e a direção da dificuldade daquela criança, pois a alfabetização é processual e contínua”. A aprovação dessa criança pode acontecer porque ela obteve nota mínima, mas não é o bastante. “A nota não é composta somente de prova e teste, como também trabalhos, deveres de casa e classe ou arguição oral. No entanto, a criança poderá apresentar muita dificuldade em acompanhar a turma do próximo ano devido à desvantagem na leitura e escrita”, esclarece.

Em casa

O processo da alfabetização não termina quando o aluno deixa a sala de aula. Ele deve ser uma parceria entre a escola e os pais, que podem ajudar a criança também em casa. A participação dos pais vai além do estímulo. “Os pais ou responsáveis podem auxiliar as crianças estimulando elas a responderem as atividades sozinhas e dando carinho para que possam sentir o amor deles”, diz a professora Josicélia Porto.

De acordo com a psicopedagoga Susy Ribeiro, os pais podem estimular os filhos levando-os a bibliotecas, teatros, cinemas e exposições de arte. “Quando os pais fazem isso, a criança é estimulada e fica mais criativa do que as que não tem esse contato com a arte”, diz. Ribeiro afirma que levar as crianças a esses lugares também pode servir para que ela reconheça as letras do alfabeto. “Fica mais fácil [aprender a ler] porque ela fica curiosa para saber e começa a fazer associação. Por exemplo, se a letra do nome dela começa com ‘E’ e ela vê essa letra em algum lugar, isso a deixa estimulada a aprender”, garante Ribeiro.

A psicopedagoga ainda destaca a importância que hábitos como ler ou contar histórias para os pequenos antes de dormir têm, pois ajudam, dentre outras coisas, a aumentar sua criatividade. Conforme Ribeiro, até mesmo a entonação é importante no momento de contar a história. “Ela fica interessada e quer aprender a ler para saber o que está escrito”, revela.

Segundo a psicopedagoga Susy Ribeiro, contar histórias antes de dormir influenciam positivamente na criatividade dos pequenos. / Ilustração: Divulgação

 

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