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“A prática jornalística vive sempre no fio da navalha”

- 14 de maio de 2012

Para Marcelo Beraba, diretor do Estadão, grau de exigência em relação ao jornalismo é muito grande

Luana Ribeiro

Entre cumprimentos de amigos e conhecidos – ou nem tão conhecidos – pose para fotos e pausas para atender telefonemas, o ID 126 conseguiu ter alguns minutos de conversa com o jornalista Marcelo Beraba, após sua palestra no auditório da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom-Ufba), na abertura do Programa Jornalismo de Futuro, parceria entre a Facom e o Jornal Correio*. Tanta concorrência tem razão de ser: Beraba é diretor da sucursal carioca do Estado de São Paulo e diretor da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), instituição da qual foi co-fundador.

 Do primeiro emprego como repórter no jornal O Globo, em 1971, até o atual posto no Estadão, Beraba teve uma carreira extensa e variada no jornalismo. Ele foi editor-executivo no Jornal do Brasil e no Jornal da Globo, da TV Globo, e atuou também como ombudsman do jornal Folha de S.Paulo, entre 2004 e 2007, após ter exercido a função de diretor da sucursal carioca deste jornal, entre 1999 e 2004. Em 2005, recebeu o Prêmio Excelência em Jornalismo do International Center for Journalism (ICFJ). Já em 2012, no dia 13 de abril, esteve em Salvador para realizar uma palestra para alunos da Facom. O tema da discussão foi: “O Jornalismo e o Futuro”. O ID 126, é claro, não ia deixar escapar a oportunidade de conversar um pouco com o jornalista.Na mesa de discussão, o evento também contou com a presença de sua esposa, Elvira Lobato, jornalista aposentada da Folha de São Paulo.

Com 40 anos de profissão, Beraba compartilhou casos e reflexões com o público | Crédito: Julien Karl

Impressão Digital 126: Na palestra, você contou sobre os episódios da arma na gaveta e do “bafo de cachaça” dos editores (quando flagrou, em seu primeiro emprego como repórter, uma arma na gaveta de um editor e o bafo de cachaça de outro chefe). Hoje, o que ameaça o futuro do jornalismo?

Marcelo Beraba: Aquela era uma visão impressionista minha. “Será que no jornalismo todo mundo é policial, todo mundo é alcoólatra?”. Era a visão de um cara que estava começando. A ameaça que eu via ali era: será que essa profissão vai me dar dignidade para exercê-la? Financeiramente e intelectualmente, eu vou conseguir ter uma experiência de um ofício digno? No fim, o que acabou acontecendo é que eu tive. Isso não era ameaça. O que eu acho é que hoje não há uma ameaça direta ao jornalismo. A prática jornalística vive este ano, ano passado, dez, vinte anos atrás sempre no fio da navalha, no seguinte sentido: você tem a responsabilidade de tentar retratar e ajudar a entender a realidade da forma mais honesta, precisa e objetiva possível, num ambiente de permanente questionamento, de deficiências, de problemas sérios. Hoje se fala: a internet vai ajudar ou vai piorar? Mas a gente já falava isso há 10 anos. A máfia, o governo, vão impedir ou não vão impedir? Então o ambiente de trabalho do jornalismo sempre foi um ambiente adverso, seja sob o ponto de vista das circunstâncias, da conjuntura, seja do ponto de vista financeiro, de negócio. Mas até hoje nós estamos indo, né?

ID126 – Há uma máxima de que todo jornalismo é investigativo. Qual a importância de se definir “o jornalismo investigativo”?

MB: Não há importância nenhuma, na verdade. Todo jornalismo é absolutamente investigativo, exige uma boa apuração. Substituindo investigação por apuração, você tem um termo mais adequado. A Associação Brasileira do Jornalismo Investigativo (Abraji) discute muito sobre isso. Foi muito mais para chamar a atenção (o uso do termo investigativo), quase como um marketing, para que você tenha uma responsabilidade na investigação jornalística muito grande. Todos nós achamos que todo jornalismo tem que ser bem apurado. Todas as matérias, sejam elas de serviço ou sobre uma denúncia de corrupção, exigem, igualmente, uma honestidade, uma objetividade, uma busca de precisão. O jornalismo investigativo é um tipo de trabalho de reportagem que vai exigir mais ainda, para que aquilo (o fato) chegue de tal maneira documentado, certo e sério que ninguém venha contestá-lo.

ID126 – Puxando até por isso, e a partir da repercussão da matéria recente do repórter Eduardo Faustini no Fantástico (a matéria, que foi ar no dia 18 de março de 2012, mostrava os bastidores da corrupção em licitações do Hospital de Pediatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro), qual a sua opinião sobre os limites desse jornalismo investigativo?

MB: Sou a favor do seguinte: você deve usar todos os recursos normais do jornalismo. Quais são esses recursos normais, as ferramentas, os

Beraba empolga-se ao lado do diretor da Faculdade de Comunicação da UFBA, Giovandro Ferreira: "Acho que nenhum de nós está realmente formado, somos chamados diariamente a continuar nos formando“ | Crédito: Julien Karl

fundamentos? Observar, entrevistar, buscar documentação, pesquisar, conhecer bem o assunto. Essas são as armas que nós temos. Você tem alguns recursos que eu chamo de “heterodoxos”, que são passíveis de discussão: câmera oculta, gravação sem que a pessoa saiba, se fazer passar por uma pessoa que não seja jornalista. A princípio, não sou contra esses recursos. Caso você esteja diante de um assunto muito relevante para a sociedade; um caso de corrupção, por exemplo, em que não se deixa prova, documento, você deve esgotar os recursos que você tem no jornalismo. Uma vez esgotados, e se algum desses outros recursos ajudar a provar algo que está prejudicando a sociedade, eu sou a favor (das ferramentas “heterodoxas”).

No caso do Faustini, ele poderia obter aquilo de outra maneira. Eu acho difícil. Mas aquele diretor (do hospital que cedeu o espaço para Faustini ocupar seu lugar, durante a produção da matéria) poderia ter juntado as provas pra ele fazer a matéria. Não seria tão contundente como foi, mas seria uma forma. Então, em alguns momentos, eu acho que justifica. Mas não pode ser uma decisão unilateral, no sentido do repórter decidir sozinho o que fazer. Tem que haver uma discussão com a direção, ou o editor. A utilização desses recursos também não pode acabar se tornando corriqueira, não pode ser rotineiro. A questão da câmera oculta se desmoralizou. Passou a ser usado pra qualquer coisa. Exemplo disso é no caso dos presos fumando dentro da cela. Aí o cara (repórter) vai lá e bota a câmera oculta. Ah…! Dane-se se os presos estão fumando! Você não precisa botar câmera oculta por causa disso.

“A questão da câmera oculta se desmoralizou”

Ou então o jornalista pega uma coisa menor, e deforma a voz da pessoa, botava “voz de Pato Donald” (imita) em coisas sem relevância. Quando se pega a matéria do Faustini, por exemplo, eu acho que ela se sustenta, ela é justificada. Tem outras matérias que usam câmera oculta que acho que são absurdas. Eu, com a responsabilidade de comando de uma redação, pondero. Restrinjo o máximo possível. Às vezes o atalho é esse. Mas eu não quero atalho, exijo do repórter. Já impedi várias pautas de virarem matéria por achar irrelevante aquilo que se queria provar com esses recursos.

ID126 – Em palestra aos participantes do Curso Estadão de Jornalismo, o senhor afirmou que nunca podemos achar que já somos um repórter formado. Hoje, como diretor de redação, após sua longa carreira no jornalismo, sente que ainda há algo a aprender, ainda há algo que falta.

MB: Eu acho que nenhum de nós está realmente formado. É como a Elvira (Lobato) diz: o jornalismo é o imponderável. Cada matéria é um mundo novo que abre à sua frente. Se eu tivesse que fazer uma matéria hoje sobre o legislativo de Salvador, eu ia me sentir inseguro. Eu ia querer ler, saber, conversar com algumas pessoas antes. É um mundo em que se eu entrar achando que tenho 40 anos de profissão, já dirigi redações, sou o “fodão”, termino quebrando a cara. O grau de exigência em relação ao jornalismo hoje é muito grande. Não adianta você ficar enganando, fazendo coisas superficiais, não adianta fingir que está conhecendo o assunto. Todos nós jornalistas somos chamados diariamente para continuar nos formando, ouvindo pessoas, continuar com os ouvidos e olhos abertos para a realidade. Senão é o empobrecimento intelectual, jornalístico, profissional e morte.

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