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A identidade de quem faz: um retrato de Lili Rubim, voluntária do FSM

Maryrluce Cerqueira - 31 de janeiro de 2018

O Fórum Social Mundial tem rostos e identidades carregadas de histórias que tornam possível a sua realização. Conheceremos a história da voluntária Lili Rubim, além do passo a passo para quem tem interesse em se voluntariar.

Convido você a um exercício de análise: entre as suas atividades frequentes, ritos, hobbies, crenças e afins, existe alguma que você exercita há 17 anos? A depender do quão jovem você é, é muito possível que você não realize nada a tanto tempo. Mas, existindo esse caso em sua trajetória de vida, já parou para pensar na importância e vitalidade desse recorte em sua vida? Já parou para pensar que você faria até o impossível para vivê-la por mais 17 anos? As histórias podem ser as diferentes, mas elas só são possíveis porque são motivadas por um aspecto comum: a existência de um propósito.

No ano de 2002, Eliane Rubim, mais conhecida como Lili, dava início, aos 16 anos de idade, a sua participação em um dos mais importantes eventos do mundo, o Fórum Social Mundial (FSM), evento que se encontrava em sua segunda edição. Ali começava também a sua trajetória e participação nas lutas com foco e temática social. Apesar da pouca idade, e do que poderia ter sido apenas uma vontade momentânea e ou até considerado um rompante de rebeldia por alguns pais, a participação no acampamento da juventude naquela edição do Fórum despertou na adolescente um senso mais crítico sobre as lutas sociais e a importância da sua participação em eventos de mesma temática e em movimentos sociais. E resultado dessa história e trajetória que a edição de 2018 do evento, em terras soteropolitanas, também contará com a presença e força dessa engajada gaúcha.

Participação de Lili no FSM, em Porto Alegre, no ano de 2013 (Foto: aquivo pessoal)

Novas rotas

Natural de Alegrete, cidade do Rio Grande do Sul que faz fronteira com a Argentina, Lili saiu da cidade natal aos 14 anos para morar com uma tia na capital do estado, Porto Alegre, que fica a 506 km de distância de onde nasceu.

Filha mais nova de uma família de oito irmãos biológicos e de alguns tantos “de criação” – tantos que ela diz até ter perdido a conta -, Lili viveu até os sete anos no campo, no distrito rural de Mariano Pinto. O pai era aposentado rural e a mãe trabalhava no campo, mas a permanência da tão jovem campesina naquele local foi curta: as dificuldades de sobreviver no campo eram muitas, o acesso à educação e à saúde era difícil e foi então que a família se mudou para a área urbana de Alegrete, onde a mãe passou a atuar como costureira.

Vítima de um câncer de mama, a mãe de Eliane faleceu aos 52 anos de idade, mas garantiu que os anos de convivência com então adolescente a fizesse despertar para os absurdos sociais e culturais que foram, infelizmente, presenciados. A imposição machista do pai sobre as vontades da mãe e as dificuldades de sobrevivência dos que viviam no campo foram alguns dos exemplos que aproximaram Lili da feminista e mulher com espírito de luta e justiça que ela se tornou. Nas primeiras articulações sociais, que se iniciaram nos grêmios e movimentos estudantis, sempre teve o incentivo da mãe, mas com a perda dela e com a relação difícil com o pai, a já citada mudança à Porto Alegre se fez necessária.

Com o passar dos anos, Lili se engajou ainda mais nos movimentos e passou a participar mais ativamente de eventos sociais. Iniciando sua história de participação no Fórum Social Mundial em 2002, quando foi sediado na capital gaúcha, Lili participou de todas as edições posteriores por meio dos Fóruns Temáticos, encontros que acontecem anualmente em Porto Alegre e precedem o FSM, independente do país ou cidade que vá sediar o evento. Em 2017, a jovem participou pela primeira vez como voluntária, na edição realizada em Porto Alegre, com a produção de conteúdo e reportagens sobre denúncias de racismo institucional e sobre as mobilizações referentes ao fórum , por exemplo.

Participação em plenária de articulação do FSM no Rio Grande do Sul (Foto: arquivo pessoal)

Passaporte

A educação é passaporte para novos mundos, novas ideias e novos ambientes – inclusive, no sentido literal. Lili, que sempre foi perspicaz, e mesmo na juventude se mostrava  madura o suficiente para perceber a real importância de alguns aspectos da vida, resolveu, aos 20 anos, abrir mão da rotina que ela chama de “vida de sobrevivência”, na qual os seus dias se resumiam apenas ao trabalho, para se dedicar ao que de fato mudaria o rumo da sua vida: os estudos.

Mais uma vez decidiu se mudar e foi rumo ao interior, novamente. Dessa vez o destino foi Pelotas, cidade do Rio Grande do Sul que é considerada um dos polos de ensino da região. Eliane cursou a graduação de filosofia, quando se envolveu com o movimento de ocupação urbana existente na cidade, de luta por moradia e centro sociais.

Lili (à esquerda) fez parte do coletivo de estudante negros da Região Sul enquanto morou em Pelotas (Foto: arquivo pessoal)

Após o fim da graduação, alçou novo voo – literalmente – e mudou-se para Buenos Aires, capital da Argentina, por conta do contato com as redes de luta da cidade. Inquieta no que diz respeito à dinâmica social e completamente presente a ativa nas causas que lhe dizem respeito, direta ou indiretamente, passou a fazer parte de um movimento de ocupação na Argentina. Lá também atuou em projetos de educação, dando aula de português e filosofia para jovens e adultos como voluntária. Lili garante que ter vivido essa experiência foi engrandecedor. “Foi muito importante essa experiência. Fiquei dois anos lá e perceber as dinâmicas de organização dos movimentos sociais lá também foi bem bacana, bem engrandecedor”, relembra a filósofa.

No retorno a Pelotas, Eliane retoma a participação em um dos projetos que já tinha feito parte, mas dessa vez, com um engajamento ainda maior: a Rádio Com. “Essa rádio é bem importante para cidade [de Pelotas], porque ela faz o contraponto das rádios comerciais, tem esse viés de ser ‘a voz dos movimentos sociais. Eu fazia parte de alguns programas como voluntária e depois acabei sendo convidada para assumir um programa diário de cultura”, relata a voluntária. Uma paixão leva a outra e, o contato com a comunicação trouxe para Lili um novo brilho no olho e um novo desejo: a graduação em jornalismo. Ingressou mais uma vez na faculdade, no curso que desejava, para “ter o reconhecimento acadêmico, já que já tinha experiência profissional”, afirmou a recém graduada.

Lili (à esquerda) fez parte da Rádio Com durante cinco anos (Foto: arquivo pessoal)

 

A inquietude de Lili é de fato algo inerente. Durante a graduação de jornalismo, conseguiu um intercâmbio para a Colômbia, onde passou a fazer parte de uma rede de economia solidária. Na volta a Pelotas, passou a fazer parte do Coletivo Negada, um coletivo anti-racista, de produção cultural e comunicação afro-centrada, integrado só por mulheres e que aborda questões de cotas raciais e demais questões ligada à população negra, e que já atua em diversas cidades do Brasil. Hoje, existe um novo objetivo em relação ao Negada: trazê-lo para Salvador.

Lili ainda faz parte do Coletivo Negada e pretende expandir o projeto para novas cidades do Brasil (Foto: arquivo pessoal)

O olhar de admiração

Entre os amigos, a opinião sobre Lili é unânime: a facilidade de comunicação e o desejo de mudança social são as mais fortes características da filósofa e jornalista. Dois dos amigos mais próximos a conheceram nesse mesmo contexto de engajamento e nutrem por Eliane admiração e confiança. “Ela é muito proativa e faz as coisas acontecerem. Se a gente tem uma ideia, ela vai atrás das pessoas que possam ajudar a tornar aquilo real. Lili está sempre na busca e no compartilhamento de atividades e ideias que impactem socialmente, principalmente ligado à questão das mulheres e do movimento negro. Em resumo, ela é companheira e alguém que se pode confiar e contar pra tudo” descreve Sassá Silva, socióloga e cineasta que conheceu Lili ainda em Pelotas e que hoje, além da amizade, tocam juntas o Coletivo Negada.

Nas palavras de Orlando Victor, também amigo de Lili e parceiro nas atividades de luta, “ela é muito destacada e tem uma facilidade enorme de se relacionar”, o que demonstra que o desejo de realizar mudanças por meio de sua trajetória não passa despercebido, contamina quem conhece e gera sempre um olhar de admiração. E ele nos revela mais uma das faces de Lili: ela é DJ e canta. Realmente é um show de mulher.

Salvador os aguarda

Lili, nome pelo qual Eliane é mais conhecida, não tem nenhuma relação com um apelido que surgiu no período da infância, como na maioria dos casos. Esse nome foi dado pelos seus amigos, os vários que a jornalista tem (como ela mesma afirma) e, entre os quais, muitos foram conquistados nessa trajetória de luta e que a conhecem tão bem quanto os seus amigos do mais remoto passado.

Entre as mais fortes características de Lili, uma é bem clara: ela é do bem. No sentido mais amplo da palavra. Porém, a origem do apelido “Lili”, quando explicado, pode parecer controverso, mas em nada é – e tem pouco a ver duplicação de uma sílaba do seu nome real. O nome Lili surgiu pelo perfil e ligação mística que os amigos veem na gaúcha, por ela ser “um pouco bruxônica”, tendo o nome ligação com a considerada primeira bruxa da história, Lilith.

A bruxa do bem e voluntária do FSM 2018, que acontece de 13 a 17 de março, estará em terras soteropolitanas em mais uma participação no evento, fazendo parte do Grupo de Trabalho (GT) de Comunicação. Mas Salvador receberá mais que uma voluntária: receberá uma nova moradora. Lili se mudará para Salvador e caso alguém ajudar possa: essa filósofa e jornalista, fluente em espanhol, está em busca de emprego.

Sobre poder fazer parte dessas lutas presencialmente, Lili entende que abrir mão do seu tempo para ajudar uma causa é também uma questão de privilégio, que “nessa relação capitalista em que tempo é dinheiro, participar do FSM como voluntário pode ser desafio”, lamenta a gaúcha. Mas ela garante que se engajar numa causa vai para além da retribuição monetária, que o ato de se voluntariar ganha mais relevância pela possibilidade de se criar redes, relações de confiança e de reconhecer no outro a mesma vontade e mudança e justiça. E esses são mais que argumentos, são os relatos da experiência vivida por essa voluntária.

Lili também acredita que, ao longo dos anos, o Fórum foi ganhando novos significados, mas que os primeiros foram de extrema importância para dar força aos movimentos sociais. “Naqueles primeiros anos, até a quinta edição, eu sentia muito essa coisa de expansão do evento, ele conseguia cada vez mais aglutinar e mobilizar mais gente. Eu tenho uma memória muito boa desses primeiros anos do evento, e que eu acredito que seja a de muitas pessoas que participaram do Fórum nos primeiros anos também, que é da diversidade do Fórum e da quantidade de ações que surgiram a partir desses encontros”, relembra a jornalista.

Lili em preparativos para as mobilizações em prol das cotas raciais, em Pelotas, no ano de 2012 (Foto: arquivo pessoal)

No caso de Lili, são, desde a primeira participação no FSM, 17 anos podendo reconhecer no outro o espírito de luta e fortificando o seu com novas ideias e novas formas de ver o mundo. No nosso caso, pode ser primeiro de muitos anos para começar a escrever a história de um sociedade mais justa.

 

Seja o coração do FSM

O Fórum Social Mundial começa em março e as inscrições para se voluntariar podem acontecer até o final de fevereiro de 2018. Os interessados poderão escolher entre os dez Grupos de Trabalho (GT) para fazer parte. São os grupos: Mobilização, Comunicação, Finanças, Infraestrutura, Economia Solidária, Programação e Metodologia, Acampamento Internacional da Juventude, Cultura e Voluntários. Clique aqui e conheça mais do trabalho de cada um.

Segundo Anne Sena, do Grupo Facilitador do FSM, e que também está à frente da organização do voluntariado, “os voluntários são o coração do Fórum”, afirma. E que, além de se contar com o trabalho deles durante a construção do FSM, há uma preocupação com a formação desse participante, tanto intelectual quanto social. “É importante que os voluntários passem pelo processo formativo e entendam a importância do voluntariado para além do FSM. E o nosso papel como organizadores é fazer com que as pessoas entendam que o voluntariado pode ser uma ator de transformação nos diversos ambientes sociais” reforça a organizadora.

Os interessados em se voluntariar deve preencher o formulário que se encontra neste link e enviar o arquivo para o e-mail voluntariar@fsm2018.org. Manifestado o desejo em participar, o interessado será convidado a um encontro em grupo onde serão explicados os trabalhos e quando se deverá confirmar a participação. Confirmando-a, o voluntário passará por treinamentos para atuar na área escolhida.

Os voluntários realizarão durante o Fórum atividades de seis horas diárias, iniciando no turno da manhã ou da tarde, sendo que desse período, uma hora é reservada para o descanso. A ideia é que nas horas restantes do dia participar como público do evento. Todos terão direitos a certificado de atividade de extensão ajuda de custo para o transporte local e alimentação.

Segundo Anne, esperam-se que cerca de 400 voluntários participem do Fórum durante a sua execução e que a adesão, até o momento, tem atendido às expectativas. Ela ainda reforça que, apesar dos números positivos, geralmente há uma necessidade maior de voluntários de comunicação e tradução para os dias do evento.

Essa pode ser a sua oportunidade de fazer a diferença. Inscreva-se.

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