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A bola está com elas

Beatriz, Elias, Ingrid, Larissa - 13 de novembro de 2019

Beatriz Rosentina, Elias Santana Malê, Ingrid Medina e Larissa Travassos

13 de novembro de 2019

A bola está no campo e quem veio jogar foram elas, as mulheres, que cada vez mais ganham visibilidade a partir das iniciativas para esta modalidade. Com uma história marcada por mais de 40 anos de proibição da prática no Brasil, a realidade do futebol feminino está mudando. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) determinou que, a partir desse ano, cada time da Série A do Campeonato Brasileiro possua uma categoria feminina, mesmo que em parceria com equipes menores.  A Copa do Mundo disputada na França, em junho, bateu recordes de audiência pelo mundo. A derrota da Seleção Brasileira para as anfitriãs francesas foi vista por 30 milhões de pessoas no Brasil, estabelecendo o novo recorde de audiência da modalidade, o recorde anterior era dos EUA, quando 25 milhões de estadunidenses assistiram à vitória de sua seleção para o Japão, na Copa do Mundo de 2015. Apesar da maior visibilidade e de um cenário mais favorável para a prática profissional, a realidade da categoria ainda é de bastante dificuldade. 

Solange Bastos, ex-jogadora da seleção e atual auxiliar técnica do Bahia, conta que os altos e baixos que envolvem a prática do futebol feminino no Brasil prejudicaram o desenvolvimento da modalidade no país. “O processo de evolução do futebol feminino oscilou. Poderíamos ter construído uma base e ter uma consistência agora. [Só] depois de 2014 que houve uma mudança real para os nossos times, principalmente do Nordeste. As pessoas abraçaram e fizeram grandes equipes de futebol feminino”.

Felipe Oliveira/EC Bahia

Há 38 anos no futebol, ela observa o cenário e traça um panorama da prática no Brasil. O relato é que na década de 90, a abertura de vagas para as Olimpíadas e o início da realização da Copa do Mundo incentivou a formação de grandes times como Corinthians, Portuguesa, Santos e outros na região sudeste. Solange também fala sobre a experiência na comissão técnica do Bahia e revela que nunca imaginou chegar ao cargo. “Estar aqui no Esporte Clube Bahia, numa grande equipe, vendo essa evolução de perto, para mim era uma coisa surreal. Eu acredito que elas (jogadoras do clube) devem valorizar isso como um todo, estão fazendo um papel inédito na vida. Estamos abraçados, com uma estrutura que nem a maior otimista do mundo poderia imaginar”, afirmou.

ARQUIVO PÚBLICO/MUSEU DO FUTEBOL

O Decreto-Lei 3199/1941, imposto durante o governo de Getúlio Vargas, o qual proibia as mulheres de jogar futebol, marcou a história de várias jogadoras, como a própria Solange, e isso traz consequências até hoje. “A gente perdeu 40 anos. O decreto que mulheres não podiam jogar futebol ou fazer qualquer esporte que tivesse agressão foi o nosso grande atraso”. Para ela, enquanto outros países como EUA, Inglaterra e Alemanha caminhavam, ficamos estagnados e só agora estamos engatinhado, com uma geração que ainda chega sem o suporte necessário. “Nós, ex-atletas da década de 90, devemos dar um suporte para essa geração que está vindo. [Assim,] daqui a 10 anos a gente não vai dever nada à Europa e nem aos Estados Unidos”, conclui.Confira a entrevista com Solange Bastos na íntegra

A dona da bola

Com 34 anos, metade deles dedicado ao futebol, Fernanda Berardinelli conta que em seus 17 anos de carreira ocorreram muitos avanços na modalidade. A goleira do Bahia, que já conquistou a Libertadores e o Mundial da categoria enquanto atuava no São José (SP), diz que medidas como a da CBF são um importante incentivo para as atletas. “A medida deu uma força pro futebol feminino. O preconceito às vezes travava a gente e infelizmente precisou de uma medida obrigatória para que pudéssemos ser vistas. Para gente foi muito bom, hoje tem milhares de meninas que jogam futebol no Brasil”.

“Infelizmente precisou de uma medida obrigatória para que pudéssemos ser vistas”, Fernanda Berardinelli

Felipe Oliveira/EC Bahia

Fernanda, que sonha em ser treinadora quando pendurar as luvas, ressalta que, apesar das mudanças, ainda há muito a desenvolver. “Precisamos avançar na base, que é o início. Nos EUA tem categoria de seis anos feminina, aqui no Brasil começa a partir dos 18 anos. Eu conheço alguns clubes que possuem categoria de base menores e são a força do futebol feminino do Brasil. Os clubes que querem investir de verdade precisam ir atrás, saber como é que é feito todo o projeto para também fazer”, diz a arqueira.

[Veja também entrevista com a jornalista Juliana Lisboa sobre o futebol feminino nas vésperas da Copa do Mundo de 2019]

Tudo começa pela base

Mesmo com todos os avanços que podem ser percebidos com o passar dos anos, ainda existem problemas estruturais que prejudicam a prática do futebol feminino. Igor Morena, ex-preparador físico da equipe masculina e atual treinador do time feminino do Bahia, diz que as questões físicas ainda são uma barreira a ser transposta na preparação. Além disso, conta que o inicio tardio da prática faz com que percam um período importante de treinamento direcionado para coordenação e desenvolvimento físico, coisas que no futebol masculino são tratadas desde cedo, nas categorias de base. “A gente não muda a aplicação do modelo de jogo, mas temos que ter o entendimento da intensidade, que é menor [em relação ao masculino]. Você tem que respeitar o aspecto físico. O conceito não muda muito, mas temos que adaptar a intensidade”, relata.

Felipe Oliveira/EC Bahia

Professora de educação física e integrante da comissão técnica da equipe Sub-20 do Lusaca, Maria Angélica Lima ressalta a importância do trabalho nas categorias de base. “Acredito que o foco do trabalho com as meninas é voltado para as dimensões táticas, técnica, física, educacional e psicossocial. Acredito que os desafios vêm da base, como a ausência ou a pouca quantidade de espaços bem estruturados, voltados para treinamento e aperfeiçoamento”, revela.

Baianão Feminino

Criado pela Federação Baiana de Futebol (FBF) em 1984, o Campeonato Baiano de Futebol Feminino já possui 35 anos de história. Conhecido como Baianão feminino o campeonato é a competição profissional do esporte na Bahia. Diferente do torneio masculino onde existe uma tradição dos maiores campeões pertencerem à capital, o São Francisco time da cidade São Francisco do Conde, localizado na região metropolitana de Salvador, é o maior vencedor da história do campeonato. Em 2016 venceu mais uma vez e chegou ao seu 15º título de forma consecutiva.

 

 

Nesse ano, o campeonato começou no último trimestre, no dia 5 de Outubro. A competição, que iniciou com 18 times divididos em seis grupos regionalizados, está em sua segunda fase.
Equipes participantes da edição 2019 do campeonato (em negrito as que avançaram à segunda fase):
GRUPO 1: Araci, Queimadas e Serrinha;
GRUPO 2: Feira de Santana, Salinas da Margarida e São Francisco;
GRUPO 3: Bahia, Galícia e Olímpia;
GRUPO 4: Flamengo de Feira, Jaguaquara e Ubaíra;
GRUPO 5: Jequié, Maracás e Poções;
GRUPO 6:  Juventude, Lusaca e Vitória da Conquista.

Veja abaixo no mapa a cidade de cada time participante:

Campeão do torneio no ano passado, o Vitória suspendeu a sua participação no Baianão Feminino desse ano. Passando por uma grave crise financeira, o clube alegou não ter condições de bancar a atuação das jogadores no campeonato estadual. Segundo Many Gleize, coordenadora de esportes olímpicos em entrevista para o site Globo Esporte, “O Vitória teria que desembolsar cerca de R$ 100 mil para garantir o time no Baianão Feminino, em um momento em que a diretoria tenta cortar custos”. De acordo com a coordenadora, o futebol de base feminino e o projeto do clube que revela atletas serão mantidos. Por outro lado, o Bahia anunciou no início do segundo semestre a gestão de sua equipe feminina. O Esquadrão de Aço vinha atuando em parceria com o Lusaca desde o início do ano, mas tomou a decisão de fazer a própria gestão da categoria. No fórum “Eu Vivo Futebol”, ocorrido no último dia 2 na capital baiana, o presidente Guilherme Bellintani anunciou que há uma negociação avançada para que a equipe feminina possua seu próprio patrocinador.

O futebol feminino no interior do estado

A radialista Anna Reis criou, há um ano, uma página no Instagram voltada à cobertura do futebol feminino no interior. Ela conta que a motivação foi a falta de visibilidade que as partidas possuem, além de ser uma forma de reconhecimento do trabalho das atletas. “Faço transmissões ao vivo no fim de cada rodada do Campeonato Baiano, onde tratamos dos jogos, resultados, artilharia. Até já nos procuraram para fazer indicações de atletas para equipes”, relata.

A maior dificuldade que as atletas encontram é financeira e isso acarreta em estruturas precárias, além da falta de remuneração. “O Campeonato Baiano Feminino não é considerado profissional e a premiação são apenas troféu e medalhas. É uma situação difícil, muitos clubes participantes não têm condições financeiras para manter sua equipe ou ter um plantel que permita ir mais longe na competição. [As jogadoras] precisam ser respeitadas, ser vistas como atletas, ser reconhecidas pelo seu potencial e seu futebol, precisam ser remuneradas”, diz Reis.

Maria Angélica também fala sobre a necessidade de investimento em estrutura. “Os desafios são cada vez maiores, pois estamos num país que pouco investe no futebol feminino. Precisamos de mais escolinhas femininas de futebol, mais clubes profissionais investindo na categoria, mais visibilidade na mídia local, tratamento profissional para as atletas, mais eventos esportivos e valorização dos times amadores ou semi-profissionais, além de maior inserção da modalidade nos espaços educacionais, como escolas e universidades”, conta.

“Cabe a nós entendermos que futebol também é para mulheres”, Anna Reis

Para que os problemas sejam solucionados, a comentarista e repórter da Santa Luz FM diz que é preciso união entre todos os envolvidos, desde as atletas até o público, passando por clubes, federações e imprensa. Ela ressalta que os problemas, que já são grandes nas capitais, se evidenciam ainda mais no interior do país. “A formação de um jogadora de futebol é um grande desafio no Brasil, principalmente no interior. O que não faltam são meninas jogando bola, mas muitas vezes falta a estrutura correta para dar suporte a elas ao longo do desenvolvimento. Cabe aos dirigentes, técnicos, entre outros, usar as ferramentas certas para esse avanço, cabe a nós levar isso a sério e mostrar para elas o quanto isso é sério, cabe a nós entender que futebol também é para mulheres”, desabafa.

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