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“A mulher faz ciência mesmo sem saber”

- 13 de julho de 2011

A professora da área de Química, Djane Santiago, fala de sua experiência como pesquisadora e sobre projeto que mudou a realidade da população do semi-árido baiano

Por  Avana Cavalcante e Edna Matos

Uma pesquisa que tinha como objetivo investigar o valor nutricional do coco licuri para possível utilização na merenda escolar, acabou impulsionando o desenvolvimento de toda uma região. O licuri é uma palmeira nativa da região do semi-árido baiano com frutos comestíveis e sementes das quais se extrai óleo vegetal. O Projeto Tecnologias Sociais para a Cadeia Produtiva do Licuri ou simplesmente, Projeto Licuri desenvolvido pelo IFBA, sob a coordenação da professora Djane Santiago, envolve ações de desenvolvimento sustentável, inclusão social e inovação tecnológica, tendo como foco a importância sócio-econômica da palmeira para a região. Tendo como experiência-piloto o município de Caldeirão Grande na região do semi-árido baiano, onde já foram atendidas 976 famílias, o projeto se estendeu para outras localidades onde, junto com as respectivas populações, está implantando tecnologias sociais para melhoria da qualidade de vida das comunidades envolvidas no processo produtivo do coco. No decorrer da pesquisa, identificou-se gargalos tecnológicos na cadeia produtiva e o projeto passou a agregar outras áreas do conhecimento como a Engenharia mecânica, Administração e Economia buscando desenvolver tecnologias e rotinas apropriadas para o fortalecimento desta cadeia. Em 2009, o Projeto Licuri ganhou o primeiro lugar do prêmio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) na categoria Tecnologia Social.

Djane Santiago acredita que a discriminação começa nos comitês de avaliação dos projetos formados basicamente por homens

A pesquisadora Djane Santiago é graduada, mestre e doutora em Química pela Universidade Federal da Bahia Atualmente, é professora de Química e coordenadora do Núcleo de Inovação Tecnológica do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA). Realiza pesquisas para o desenvolvimento de biossensores para a área ambiental, desenvolvimento de estratégias analíticas de preparo de amostra de alimentos, propriedade intelectual e inovação.

Impressão Digital 126 – É possível perceber alguma discriminação no acesso a financiamentos ou a centros de pesquisas para as mulheres aqui na Bahia?

Djane Santiago Eu acho que sim. Como os cargos nos comitês de avaliação são ocupados pelos homens, as mulheres conseguem ter menos acesso, pois eles não têm a mesma sensibilidade para antever os desdobramentos de uma determinada proposta de pesquisa. Um exemplo é o Projeto Licuri, que foi rejeitado por seis agências até que venceu um edital da Finep e hoje é um projeto premiado.

Impressão Digital 126 – Ainda existem áreas consideradas como mais adequadas às competências femininas?

DS – Existem. É uma questão histórica. A menina vive o preconceito desde o ambiente familiar, onde elas ajudam nas tarefas domésticas enquanto os meninos ficam livres para descobrir o mundo. Isto é formado internamente, quando a gente fala em educação, por exemplo, vem na cabeça logo uma professora. É necessário quebrar estes paradigmas desde a educação fundamental. Além disso, a mulher é vista como sendo mais sensível e sentimental. É aquela que abraça e que cuida e as áreas de saúde e educação precisam de quem abrace. Já as ciências duras trazem a idéia de que se trabalha com máquinas e nela não é “gerado” nada. Mas, a verdade é que todas as áreas precisam dessa sensibilidade para que exista a criação e esta qualidade feminina deve ser valorizada.

Impressão Digital 126 – É possível para a mulher conciliar a pesquisa científica com a vida familiar?

DS – Na verdade, é complicado, pois há uma cobrança muito grande. As mulheres dão prioridade à vida familiar em detrimento das pesquisas. São poucas as mulheres que acham mais importante apresentar um trabalho, escrever um artigo ou publicar um livro, em vez de cuidar de um filho doente. Dá pra conciliar quando você traz a sua família para dentro do seu trabalho – você vai para um congresso e leva seus filhos, por exemplo. Eu já vi pesquisadores homens em que o pai morreu de manhã e de tarde estava no laboratório. Uma mulher não faria isso. Mas, já dá para sentir algumas mudanças. No falecimento do meu pai, aconteceu um fato que eu faço questão de registrar. A Finep me enviou uma mensagem em que dizia que se eu quisesse manter viva a memória do meu pai deveria dar continuidade ao trabalho, porque só quem recebeu amor poderia semear amor desta forma. Na área de tecnologia social, as mulheres conseguem dar mais resultado do que os homens porque têm um olhar diferente, mais meigo e sensível, pois nós fomos criadas desta forma, independente da área em que se esteja trabalhando.

Impressão Digital 126 – Como se tornou pesquisadora?

DS – Eu era muito próxima da minha avó que fazia chás para tratar algumas doenças. Ela dizia, por exemplo, que o uso medicinal da noz moscada só era eficaz se ela fosse ralada, embora não soubesse explicar por que. Hoje, eu aprendi que algumas substâncias quanto menor forem as partículas, mais fácil de serem absorvidas pelo nosso organismo. Como você vê, a mulher faz ciência mesmo sem saber. Na verdade, ela já fazia nanotecnologia. Eu cresci observando ela fazendo infusão, e então fiz o curso Técnico em Química, na antiga Escola Técnica Federal e Engenharia Química na UFBA, depois passei a ensinar no antigo Cefet (atual IFBA). Mas, não bastava ser professora, eu queria ser pesquisadora também. Tinha o sonho de implementar a pesquisa aqui nessa instituição que me acolheu na adolescência e mudou a minha realidade de vida permitindo ter ascensão social. Eu queria dar este retorno a esta instituição que já possuía bons alunos e bons professores e agora eu queria que tivesse, também, bons pesquisadores. Criei o primeiro grupo de pesquisa da instituição a ser cadastrado no CNPq.

Impressão Digital 126 – É diferente fazer pesquisa em uma instituição de caráter mais tecnológico e voltado para o mercado?

DS – Nas universidades, as pesquisas são mais amplas, mas eu queria uma pesquisa voltada para o público de uma escola técnica. Não queria uma que fosse voltada apenas para o ensino, queria, sim, uma pesquisa aplicada, cujos resultados pudessem ser sentidos nas comunidades.

Impressão Digital 126 – Como começou o Projeto Licuri?

DS – Sou do subúrbio de Salvador e o licuri fez parte de minhas brincadeiras de criança. Em 2003, eu li que iriam colocar pipoca na merenda escolar e pensei se o licuri também não poderia ser aproveitado. A questão era saber se esse coco tinha algum valor nutricional. Nesta mesma época, a Faculdade de Nutrição da UFBA fazia algumas experiências alimentícias através de multimisturas, usando cascas de frutas e verduras, macarrão verde, etc, e esses alimentos eram distribuídos entre os alunos de escolas públicas que não os recebiam muito bem. Eles chamavam de ração do pobre. Aquilo me tocou por ração lembrar animal, cobaia. Então, pensei que os produtos precisavam ter, além do valor nutritivo, a aparência e o gosto dos produtos que eles vêem na televisão, no supermercado.  

Impressão Digital 126 – Então a pesquisa revelou que o licuri era nutritivo?

DS – Sim.  Ao descobrir que o licuri era rico em nutrientes substituímos a oleaginosa da barra de cereal comum pelo coco e assim surgiu a barra de cereal do licuri. Ou seja, na forma tradicional de fazer pesquisa, o licuri teria virado mais uma das famigeradas rações, mas, nós o transformamos em um produto atrativo que as pessoas identificam como sendo de consumo de uma camada social mais elevada. Foram criadas barras de cereais, cookies, que são associadas à saúde, à dieta, e são consumidas por pessoas de um padrão social mais elevado. Isso sem deixar de conservar o sabor de um componente que o povo está acostumado.

Impressão Digital 126 – Como é a relação dos pesquisadores com a comunidade do semi-árido baiano?

DS – Nos grandes centros estão a maior parte dos pesquisadores. É difícil interiorizar a pesquisa. Quando divulgamos o resultado do projeto em um jornal de grande circulação, as prefeituras da região do semi-árido baiano passaram a nos convidar para palestras. Na primeira, fomos munidas com slides, data-show, estas coisas que a gente usa na área acadêmica e as pessoas falaram: “Muito bonitas estas fotos, mas nós queremos saber se isso aí tem gosto de licuri”. A gente vai com tudo que é tradicional e não consegue se comunicar. Hoje, eu aprendi que há uma troca de saberes, a gente não vai apenas ensinar, tem muito que aprender também. Nessas reuniões descobrimos que a quebra do licuri ainda era feita de forma precária, não havia um equipamento que fizesse isso. As mulheres quebravam, debulhavam e vendiam o restante por quarenta centavos o quilo para a indústria de extração de óleo. Com a continuidade dos trabalhos, a população se conscientizou de que o licuri era um fruto, tinha valor e não deveria ser catado, e sim colhido. Foi assim que surgiu o Programa Colhedoras de Licuri.

Impressão Digital 126 – O projeto começou com as áreas de química e alimentos. Como se deu a agregação de outras áreas?

DS – Quando já se tinha conscientizado da importância do licuri, pensou-se em melhorar a cadeia produtiva. Então, o projeto agregou a área de Mecânica e, como resultado dessa parceria, foram desenvolvidos equipamentos para facilitar o processo de extração e preparo do fruto. Hoje, o licuri é colhido pelas mulheres, depois secado na máquina solar e triturado na máquina quebradora de licuri, equipamentos desenvolvidos pela equipe de Mecânica. O processo não é totalmente mecanizado, a máquina quebra, mas a separação ainda é manual. A gente buscou não mexer na cultura, pois durante a noite as mulheres sentam nas portas de suas casas para debulhar o licuri e conversar. Era necessário preservar este momento de convivência. É importante dizer que a tecnologia e a pesquisa precisam estar interligadas à cultura. Neste ponto eu volto a afirmar que só um projeto conduzido por mulheres teria esta preocupação. Isto mostra a diferença do olhar da mulher na pesquisa. Outras áreas que se agregaram depois ao projeto foram a Administração e a Economia que trabalham no processo organizativo das famílias extrativistas incentivando a formação de cooperativas.

Impressão Digital 126 – Pelo que se falou até agora, parece que esse é um projeto feminino.

DS – Com certeza. As mulheres são a maioria entre os pesquisadores. O projeto na área de pesquisa e caracterização do coco do produto tem uma química, duas nutricionistas, uma engenheira de alimentos e cinco alunas de iniciação científica das áreas de Nutrição e Engenharia química. O desenvolvimento de equipamentos conta com dois professores e uma bolsista da área de Mecânica. Ainda, na área de Mecânica temos duas engenheiras pesquisando o desenvolvimento de novos materiais a partir da palha do licuri. Além disso, a diretoria da Cooperlic, uma cooperativa criada na comunidade de Caldeirão Grande, para organizar a produção, é toda feminina.

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